Educação financeira ensinada às crianças pode garantir um futuro melhor

Com 78,3% de brasileiros endividados, fica a necessidade de aprender a lidar com dinheiro desde cedo

Por: ATribuna.com.br  -  12/11/23  -  10:37
Muitas são as formas utilizadas pelas famílias para inserir as crianças no universo financeiro
Muitas são as formas utilizadas pelas famílias para inserir as crianças no universo financeiro   Foto: FreePik

Cofrinho, mesadas, envelope com dinheiro em datas comemorativas e até mesmo o troco das compras. Muitas são as formas utilizadas pelas famílias para inserir as crianças no universo financeiro. No entanto, as ferramentas não serão suficientes se os pequenos não forem desde cedo ensinados a gastar com responsabilidade. Eles precisam aprender a poupar, valorizar e fazer as melhores escolhas dentro da sua realidade.


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Em casa, a abordagem pode ter início de forma lúdica. O exemplo dos pais também costuma ser um bom caminho. Aliado a isso, as escolas passaram a desempenhar um papel fundamental, com as chamadas disciplinas de educação financeira. O objetivo é simples: contribuir para adultos menos endividados e prontos para tomarem decisões importantes no futuro.


Não à toa, em 2021, o Ministério da Educação (MEC), a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e o Sebrae criaram o Programa Educação Financeira nas Escolas. O projeto quer capacitar 500 mil professores em educação financeira durante 3 anos. Após esse período, os docentes estarão aptos a disseminar seus conhecimentos a 25 milhões de alunos dos ensinos Fundamental e Médio no mesmo período. Esses jovens terão, no futuro, a oportunidade de fugir das estatísticas que, hoje, apontam para um elevado número de inadimplentes no País.


Cenário
De acordo com a pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), a cada dez famílias brasileiras, oito possuem dívidas. Em abril deste ano, 78,3% dos núcleos familiares do País tinham dívidas. Em 2022, a média total foi de 77,9%, valor recorde desde que o levantamento começou a ser feito pela CNC, em 2011.


E não para por aí. No ano passado, a proporção de famílias com contas em atraso chegou a 28,9%, também o maior patamar da série histórica da Peic.


“Um dos maiores desafios da educação financeira é não ser desenvolvida na formação de crianças e jovens, seja na escola ou em casa. A intenção é educar crianças e adolescentes para lidar não só com o dinheiro, mas também para planejar sua trajetória de vida e se preparar, de forma segura, para análises econômicas, independentemente de possuírem pouco ou muito recurso financeiro para sua situação atual”, afirmou o analista da Unidade de Educação Empreendedora do Sebrae Nacional, Rafael Hermogenes.


Primeiros passos
Segundo ele, o ideal é começar a falar sobre educação financeira desde cedo, quando a criança já começa a entender o valor das coisas, mostrando, assim, a importância do dinheiro. Para aqueles que ainda têm dúvidas sobre como tocar no assunto junto ao público infantil, Hermogenes sugere uma abordagem por meio de brincadeiras, como jogos de tabuleiros envolvendo transações financeiras. Além disso, pode ser feita a montagem de um orçamento familiar para que as crianças tenham a chance de aprender sobre planejamento e controle de gastos.


“Vale até a criação de hortas. Nela, poderão aprender sobre o valor do trabalho e da paciência para alcançar objetivos. E com isso vai se introduzindo o hábito que perpassará para o resto da vida, formando um adulto consciente na tomada de decisão”, mencionou o analista do Sebrae, explicando que quando se trata do ambiente escolar, o tema deve ser discutido em diferentes disciplinas e não apenas em matemática, pois é um assunto que envolve diversos aspectos da vida financeira.


Preparação
Para que a explanação em sala de aula seja feita de forma adequada, é fundamental que os professores sejam preparados para formar cidadãos conscientes. É exatamente essa a função da parceria do Sebrae com o MEC e o CVM que, juntos, dispõem de um curso EAD e formação de docentes em educação financeira no ambiente escolar.


O treinamento auxilia esses profissionais na aplicação do material e nas disciplinas para os alunos. O curso está disponível para capacitar os professores do Ensino Fundamental I e II (do 1º ano ao 9º ano) e tem duração de 40 horas anuais, totalizando 360 horas em todo o período de capacitação.


“Se começarmos a provocar essa temática com os alunos, ensinando e estimulando-os a lidar com os recursos e a se responsabilizarem por sua administração, teremos pessoas preparadas para o consumo consciente, evitando até problemas mais graves, como a falência”, disse Hermogenes.


Colhendo frutos
No Colégio Marista Arquidiocesano, localizado na Capital Paulista, já existe a disciplina de Educação Financeira. Nela, a abordagem começa em História, na tratativa das trocas de mercadorias e todo o sistema de compensação criado ao longo do tempo, passando por Sociologia, onde o aspecto social da matemática financeira é estudado, até a disciplina de Atualidades, ao se falar sobre as dinâmicas de mercado.


A parte analítica fica quase exclusivamente para as aulas de Matemática (tanto na formação geral básica como na integrada), além das explicações mais direcionadas nos itinerários formativos anteriores.


“A educação financeira nas escolas é crucial para equipar os alunos com habilidades essenciais de gestão de dinheiro, desde os anos iniciais, trabalhando principalmente com moedas e simulando com dinheiro fictício situações de compras no dia a dia. Na sexta-feira, verificam a situação real com compras na cantina”, detalhou o professor de Matemática do Marista, Eduardo de Oliveira.


“Esse trabalho promove independência financeira e prepara os jovens para desafios do mundo adulto. Também protege contra fraudes e estimula o empreendedorismo, contribuindo para uma sociedade mais equitativa e uma economia mais saudável”, completou Bruno Mascaro, que atua na mesma disciplina.


Os docentes concordam que o primeiro passo na temática pode ser dado a partir do momento que o estudante começa a aprender as operações básicas (adição, subtração, multiplicação e divisão). Isso já nos anos iniciais do Ensino Fundamental I. No Fundamental II, há uma ampliação do conteúdo, com conceito de proporcionalidade e porcentagem, incluindo a ideia de descontos e acréscimos, chegando até a inicial dos juros simples.


“Ao chegarmos no Ensino Médio, temos um leque maior de ferramentas matemáticas que podem nos auxiliar e aproximar do tratamento de uma situação financeira real, fazendo uso de análise gráfica, logaritmos e progressões geométricas na resolução de problemas do dia a dia, envolvendo juros compostos”, mencionou Oliveira.


Prefeitura e conscientização
Na Prefeitura de Santos, a oficina de educação financeira faz parte do módulo de empreendedorismo do Projeto de Múltiplas Linguagens Tecnologia e Educação - Parquinho Tecnológico, voltado para alunos do Ensino Fundamental, anos iniciais e finais, com idade entre 6 e 14 anos. A aula integra o eixo pedagógico das escolas de tempo integral e/ou jornada ampliada, e busca a articulação entre o processo da aprendizagem investigativa e a capacidade dos alunos de intervir e promover transformações na vida e no entorno no qual estão inseridos.


“A abordagem envolve uma combinação de estratégias e atividades para promover o entendimento e o desenvolvimento de habilidades financeiras essenciais que os prepararão para tomar decisões financeiras ao longo da vida. O trabalho é voltado para questões da rotina pessoal e familiar a partir de uma análise diagnóstica do que eles trazem como conhecimentos prévios”, disse a chefe da Seção Núcleo Tecnológico Educacional da Secretaria de Educação de Santos e coordenadora geral do projeto Parquinho Tecnológico, Cristiane Domingues.


Entre os tipos de atividades desenvolvidas estão a abordagem de conceitos financeiros em atividades práticas e projetos, uso de jogos para envolver os alunos de forma atrativa e promoção de discussões em sala de aula sobre tópicos financeiros relevantes, como dívidas, crédito, orçamento pessoal e investimentos.


“O interesse pela oficina é uma realidade diária, as iniciativas impactam a vida deles e sendo assim se sentem pertencentes ao que é proposto. Os alunos querem saber sobre meios de variar a alimentação e também sobre a possibilidade de preparar e provar juntos desse alimento oriundos do reaproveitamento”, destacou Cristiane. E os resultados são evidentes, garantiu a professora.


Segundo ela, os alunos se tornam mais conscientes de como o dinheiro funciona, incluindo como ganhá-lo, gastá-lo e economizá-lo, e são mais capazes de tomar decisões evitando armadilhas financeiras comuns. Além disso, começam a se planejar para metas de longo prazo, como a educação universitária e a compra de uma casa e a aposentadoria, diminuindo, assim, as disparidades financeiras. “Os alunos do projeto relatam com propriedade sobre temas como consumismo com criticidade. Portanto, acreditamos que serão adultos conscientes e preparados”.


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