"Bullying de hoje é mais danoso", afirma neuropsicóloga em fórum, em Santos

Iara Mastine ressalta que tecnologia potencializa práticas violentas; ela participou do A Região em Pauta

Por: Da Redação  -  05/11/23  -  20:38
Iara disse que redes sociais intensificam a disseminação das ridicularizações que ocorrem nas escolas
Iara disse que redes sociais intensificam a disseminação das ridicularizações que ocorrem nas escolas   Foto: Vanessa Rodrigues/AT

A neuropsicóloga Iara Mastine diz que o bullying praticado hoje em dia é mais danoso do que o de anos e até décadas atrás. A especialista também afirma que é um engano comparar as ‘ridicularizações’ de agora com as vistas no passado. Isso por causa do alcance da internet e, mais especificamente, das redes sociais.


Ao abordar o assunto, a especialista falou que há um erro comum entre os pais que a procuram pedindo ajuda. “O que mais ouço em consultório: ‘Na minha época, não tinha nada disso’. Era diferente. Antigamente, tudo ficava no local (escola)”.


E é aí que está o problema, de acordo com a convidada de A Região em Pauta. Se, antes, ao deixar o colégio, o adolescente tinha condição de esquecer as agressões por não ter mais contato com elas no restante do dia, atualmente, a tecnologia faz com que as gozações o acompanhem onde quer que vá e em qualquer horário.


“Se a criança ou o jovem é fotografado em sala de aula em alguma situação vexatória, logo estará retratada em todos os grupos. Ela vai para casa e continua, porque mandam a imagem para um, mandam para outro… Então, atualmente, a potencialização de chegar mais longe aumentou muito. E esse rastro é muito ruim”, ressalta.


Consequência
Iara usou um exemplo recente para destacar que o cyberbullying, propagado e fortalecido pelas redes sociais, pode gerar atitudes extremas, como a vista no último dia 23, na Zona Leste de São Paulo, Capital. Naquele dia, um aluno de 16 anos entrou armado na Escola Estadual Sapopemba e disparou com arma de fogo, matando uma aluna e ferindo outros três.


“Eu vi um vídeo daquela pessoa sofrendo bullying. (As brincadeiras) já tinham acontecido, mas a coisa ainda ficou (na mente dela). As redes sociais deixam um rastro que, antes, não existia”, reforçou.


Por tudo isto, a neuropsicóloga pediu que autoridades, educadores e aqueles que, de alguma forma, fazem parte do universo estudantil promovam mais ações, com o objetivo de evitar episódios de agressão e zombaria. “Não tenho dúvidas de que há necessidade de campanhas. É muito importante”


Números mostram prática em alta no Brasil
O bullying segue em alta no Brasil, como demonstram vários estudos. Por sinal, um levantamento divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou que mais de 40% dos adolescentes já foram vítimas desta prática. O dado consta na Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE).


O órgão comparou os números de 2009 e 2019. Os respectivos percentuais de ambos os anos foram de 30,9% e 40,3%. Ou seja, em dez anos, houve um salto de quase dez pontos percentuais em relação às vítimas de agressões.


O IBGE considerou, para o estudo, indivíduos que tinham entre 13 e 17 anos de idade.


Vingança
Esse quadro pode ser perigoso, pois existe a chance de que alvos de bullying tentem se vingar, a exemplo do que aconteceu na escola de Sapopemba. Afinal, esse tipo de situação não é um fato isolado.


Para que se tenha ideia, em seu site, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) postou um artigo, cujo título é: “Bullying e violência escolar”. O material traz o resultado de uma pesquisa, elaborada pelo psiquiatra norte-americano Timothy Brewerton. O estudioso descobriu que, entre 1966 e 2011, aconteceram 66 ataques em colégios, em todo o mundo, nos quais 87% dos atiradores sofriam bullying e foram movidos pelo desejo de vingança”.


Agressividade pode ser causada por doença
Ao longo de A Região em Pauta, especialistas disseram que osbullers,aqueles que praticam o bullying, também precisam de atenção. Existe a compreensão de que eles podem ser agressivos por causa de doenças mentais ou devido a comportamentos absorvidos na própria casa, entre outros. Elementos como estes contribuem para que haja quem viva, sistematicamente, ridicularizando os colegas.

A primeira convidada do evento a abordar o tema foi Iara Mastine, que falou sobre a chance de as atitudes ofensivas terem origem patológica. Segundo ela, “uma criança com Transtorno Opositor Desafiador, que tem característica de ser vingativo, não sabe lidar com injustiça. Por isso, expressa-se de forma violenta.

A psicanalista e fundadora do Espaço Adolescer, entidade que trabalha há 20 anos com conflitos, Alessandra Mazzotta, seguiu linha de raciocínio parecida. “A pessoa que persegue o outro está pedindo ajuda de um jeito equivocado. Ela está doente”.

Mais razões
Iara apontou outro possível motivo. “Muitas das pessoas que chegaram com queixa de agressividade estavam totalmente despertencentes à família, ao contexto ou a amigos. Aí, traziam a agressividade e comportamento de bullying”.

Por fim, a neuropsicóloga citou o ambiente familiar como combustível para alguém se tornar violento. “O adolescente pode sofrer um vazio na casa dele, não ser escutado ou ter pais muito autoritários. Então, pode serlt;CF70gt; que não tenha relação de afeto, não aprenda valores básicos, não saiba o que é empatia e não se coloque no lugar do outro”.

Para Iara Mastine, a solução é demonstrar carinho por este jovem agressor. Com isto, a tendência é de que as más práticas sejam deixadas de lado gradativamente. “Uma coisa que ajuda muito, falando de forma generalista: afeto e inclusão. Todo mundo quer ser pertencente”.


Logo A Tribuna
Newsletter