As cinco mulheres compartilharam seus depoimentos pessoais (Alexsander Ferraz/AT) As profissões são distintas, como as vivências também. Histórias que se cruzam sob um mesmo tipo de drama: a luta contra o câncer de mama, uma ou mais vezes. Exames, diagnósticos, apreensão, cirurgia, recuperação – em curso ou como memória e exemplo de resiliência. As cinco mulheres que participaram do primeiro painel do A Região em Pauta, “Viver e Recomeçar”, realizado pelo Grupo Tribuna, são porta-vozes da esperança, de uma vitória contra a doença que, segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), registra no Brasil, por ano, mais de 73 mil novos casos, sendo este o tipo de câncer que mais mata mulheres no País. A seguir, trazemos os depoimentos feitos por elas para a plateia que estava presente no auditório da Riviera de São Lourenço. E que, agora, são oferecidos por aqui, como testemunhos de luta. Confira: Flávia Novaes Hutterer (Alexsander Ferraz/AT) Flávia Novaes Hutterer assistente social “O meu diagnóstico traz uma reflexão ainda da importância do nosso corpo, como é perfeito e como a gente precisa se autoanalisar sempre, se perceber sempre. Um dia, tomando banho, vi um carocinho próximo da axila e falei 'Ah, não é nada, deve ser uma íngua'. Menosprezei aquele carocinho e achei que ia passar. Foram três, quatro meses, e aquele carocinho não sumiu. Eu achei esquisito. Fui ao médico, fiz os exames, e na mamografia não deu nada. No ultrassom, deu como se fosse uma bolinha de gordura. E a médica encaminhou para o mastologista, que falou 'É simples, é uma bolinha de gordura. A gente faz a cirurgia’. Mas fiquei com aquela “pulguinha” atrás da orelha. 'Esse carocinho não nasceu comigo, então ele não me pertence’. E ela falou assim, 'Você quer fazer cirurgia?' ‘Eu quero’. E aí ela pediu biópsia. E nessa situação, é que veio o diagnóstico do câncer. Imediatamente, foi marcada a cirurgia, que eu já fiz. Tem nesse processo todo de descoberta, de idas e vindas (lágrimas), praticamente dois meses. Agradeço a força que eu tenho recebido de todo mundo, da minha equipe, da turminha da Apae, porque eles me fortalecem todos os dias, e eu fiz a cirurgia. Agora, vou passar em avaliação para fazer radioterapia e começar a tomar medicação e tudo o que precisa fazer. Ainda estou com o braço dormente, sentindo dores. Mas, penso positivo, e eu sei e sinto que a gente vai vencer”. Maria Conceição Bela Brito (Alexsander Ferraz/AT) Maria Conceição Bela Brito fonaudióloga e ativista da causa do câncer de mama “Em 2021, fiquei com meu irmão internado por conta da covid, intubado durante 30 dias. A minha mãe também com covid em casa. Eu achei que estava vivendo os piores dias da minha vida. Fui fazer um exame de rotina, pois sempre fui uma pessoa que cuidei muito da minha saúde, mas não fazia o autoexame, apesar de ser da área da saúde. Descobri depois de ter feito algo que não aconselho: deixei a mamografia guardada em casa. Meu marido olhou para mim e falou, 'Hoje é a abertura do Outubro Rosa'. Lembrei da mamografia que estava guardada e, quando abri o laudo, cheguei na sala e falei, 'Eu estou com câncer de mama'. Naquele momento, foi como se um buraco abrisse no chão e a gente foi engolido por ele. Na época, minha filha tinha de 7 para 8 anos. E foi muito difícil passar por tudo isso, vivendo um luto, uma mãe doente, cheia de sequelas e eu tendo que administrar uma vida que não é a que a gente escolhe. O câncer é uma doença que tira você do seu estado pleno. Você não tem muitas opções. Recebe o diagnóstico e tem que ir por um caminho que não sabe onde vai dar. No primeiro momento, eu achei que ia morrer. (...) Mas aí a gente vai percebendo que esse caminho tem nuances e tem anjos. A gente vai entendendo algumas coisas que vão acontecendo. Eu passei por um processo muito difícil, fiquei 16 quilos mais magra, perdi os cabelos, fiz quimioterapia, perdi uma mama. Mas eu, pra mim, sou uma pessoa que tento levar a vida muito positivamente. Levei tudo isso de uma maneira que jamais poderia me derrubar. As minhas quimioterapias eram tratadas como bolsas de amor e cura. Eu me conectei com outras pessoas, porque é muito importante a gente estar próximo de quem está vivendo o mesmo. Isso me ajudou muito. Foi quando eu fui para as redes sociais, onde tenho um grupo de mulheres também que se conecta. Isso é muito importante. Hoje eu estou em remissão, a minha filha tem 11 anos. Sempre digo que a tempestade passou, mas a gente vive a chuva fina. A cada três meses, a gente ganha um passe livre”. Núbia Maria Duarte de Oliveira (Alexsander Ferraz/AT) Núbia Maria Duarte de Oliveira corretora “Tinha duas filhas pequenas, uma com um ano, e outra com três meses de nascida, quando tive câncer do útero. Eu morava na Paraíba, e foi bem sofrido. Fazia o tratamento em João Pessoa. Eram seis horas de viagem (...) Aí fui para Bertioga em 2012. Em 2018, eu descobri que estava com um câncer de mama. Mas eu não queria mais fazer o tratamento porque estava sozinha. Fui consultar em Bertioga e o médico falou: 'Seu câncer está bem avançado, do tamanho de um limão. Você tem três meses de vida'. Aí ele me indicou para ir para Guarujá. Quando eu comecei o tratamento com uma médica que era muito boa, ela veio e me disse: 'Você não vai morrer'. Na época, eu pesava 36 kg. Venci. Hoje estou bem. Eu agora estou com duas metástases no pulmão. A gente vai levando e vai enfrentando. Esse é o quarto episódio de câncer. Mas estou bem. E a todas que passarem por isso, não abaixem a cabeça. Trabalhem, ocupem a mente. Não se entreguem”. Custódia Souza (Alexsander Ferraz/AT) Custódia Souza aposentada “Eu descobri o câncer de mama em 2015. Aí eu fiz o tratamento, Deus me deu força, e só através dEle e dos médicos fiz tudo o que foi necessário. Em 2019 eu tive alta do remédio. E fazendo os exames de rotina, descobri o segundo câncer. Fiz tratamento e, dia 16 de agosto, vim morar em Bertioga. E aqui estou bem. No mês passado, fazendo exames de rotina, descobri um nódulo na mama direita de 2,7 centímetros. Mas eu estou bem, graças a Deus, e agradeço a todos por esse momento maravilhoso que representa a vida”. Maria Guilherme de Almeida (Alexsander Ferraz/AT) Maria Guilherme de Almeida servidora pública aposentada “Eu descobri (o câncer) pela primeira vez quando eu tinha 44 anos. Fui o primeiro caso na minha família, então a gente não tem histórico. E como sempre frequentei o médico, fiz as consultas rotineiras, descobri e falei ao médico, mas ele não acreditou muito. Resolveu cuidar da parte ginecológica e pediu para que eu esperasse, que não tinha nada. Isso demorou seis meses, até que eu cheguei com a cirurgia ginecológica marcada e perguntei a ele, 'E a mama?'. Ele perguntou 'O que tem a sua mama? 'Minha mama está torta, está defeituosa'. E aí ele me encaminhou para o oncologista. Foi uma surpresa, porque eu não esperava ter esse diagnóstico. Mas encarei de uma forma muito branda, muito calma. Tanto é que eu não comentei com ninguém. Eu fiz a cirurgia, eu entrei em tratamento. Realmente é muito sofrido, mas eu fui encarando, eu fui vivendo, (...) Nove anos depois, eu tive outro. Entre os 44 e 53, tive um câncer de pele. Aos 53 anos, veio uma recidiva e esse tratamento foi um pouco mais devastador. Mas aí tirei a mama, fiz todos os tratamentos, e encarei também com bastante serenidade, até por conta de ser uma pessoa muito positiva. Poucas pessoas sabiam que eu tinha tido câncer de mama. Eu não comentava, porque eu não achava importante. Eu não achava necessidade de valorizar a doença. Eu comecei a viver e continuei vivendo. Fazer as coisas que eu gostava de fazer. Então, eu fui fazer muito mais coisas. Intensifiquei as minhas atividades. Fui dançar, fui fazer balé, fui viajar, fazer um monte de coisas que, pra mim, fizeram muito bem. Me aposentei e segui a vida. No ano passado, eu fiz a reconstrução da mama. (...) Hoje, estou aqui para contar a história, e muito feliz e sempre procuro dar o meu depoimento de forma positiva para encorajar as pessoas que também passam por isso. E eu acho que a união de todas é tudo, é mais que importante”.