Para Simone Elias, risco de câncer de mama é inerente a ser mulher; Andréa Sander faz elogios ao SUS (Alexsander Ferraz/AT) O câncer de mama, quando detectado no início, tem sua chance de cura próxima de 98%, motivo pelo qual os exames de rotina, como mamografias, especialmente a partir dos 40 anos, são recomendados pelos especialistas. E buscar saber o máximo sobre ele, seus diferentes tipos, características e tratamento, também. Dessa forma, o combate à doença, embora individual e personalizado, envolve diversos cuidados, com a atenção de equipes multidisciplinares. “Nascer mulher é fator para poder ter câncer de mama. Pode ser vegana, carnívora, amamentar, não ter filhos... A partir do momento que a gente nasce mulher e tem mamas, tem risco. Obviamente algumas pessoas têm um pouco mais”, afirma a mastologista e escritora Simone Elias. Segundo ela, entre os fatores associados ao aumento de risco, estão o sedentarismo e obesidade, uso de hormônios sem orientação, além de álcool e tabaco. “No caso da obesidade, o tecido gorduroso produz estrogênio, mesmo que a mulher não esteja na menopausa. Além disso, a gente está numa onda grande de estimular a atividade física, que a gente já sabe de todos os benefícios”, aponta. Outro elemento importante é o rastreamento. Ela alerta que não é uma prevenção primária. “A mamografia é um exame padrão de rastreamento. No SUS, vai dos 50 aos 74 anos. E mais recentemente, dos 40 aos 49. Aquela mulher que dividir com o médico a indicação da mamografia, também pode fazer no SUS”, aponta. “Algumas mulheres têm mamas densas, com mais tecido glandular. São brancos no exame, e o tecido gorduroso é transparente. Então, naquela mama que é mais densa e branca, vai ser mais difícil de achar algumas lesões. Para elas, o ultrassom é um complemento da mamografia, e a ressonância para casos de alto risco”. Simone Elias lembra que as mulheres com maior probabilidade de terem câncer de mama são as com histórico familiar (mãe, irmã, filha), que apresentam alterações genéticas e que fizeram radioterapia no tórax antes dos 30 anos. Nestes casos, o rastreamento deve ser mais intenso e começar mais cedo. “Quanto aos testes genéticos, alguns tipos de gene vão identificar se essa mulher tem um risco aumentado, e isso vai orientar o rastreamento e a prevenção. Ou intensificar o rastreamento, mas também é preciso conversar com a mulher sobre essa cirurgia, que não é uma cirurgia simples, não é uma cirurgia estética, não é uma colocação de prótese. É uma cirurgia agressiva, a mulher perde sensibilidade”, acrescenta. Diagnóstico e cirurgia Simone Elias reforça as formas de obtenção do diagnóstico: mamografia acompanhada de biópsia e um exame anatomopatológico. “O estadiamento permite saber se a doença é inicial ou avançada. A partir daí, faço o planejamento do tratamento. E sempre com uma equipe multidisciplinar”. Os tipos de tumor são: o Luminal A/B (tratado com bloqueadores hormonais), Her2 Positivo (quimio + terapia-alvo) e Triplo Negativo (químio + imunoterapia). “A gente está vendo câncer de mama em mulheres mais jovens, que estão tendo filho mais tarde. Então, chega para a gente uma mulher que está com câncer de mama, mas quer ser mãe. Embora a paciente queira salvar a vida dela, a gente precisa orientar a preservação da fertilidade antes de começar o tratamento, porque isso interfere no que a gente vai coletar de óvulo”, orienta. Rede para tratamento oncológico é ampliada Uma ideia amparada nos depoimentos das mulheres que conviveram ou convivem com o câncer ganhou força: de que o Sistema Único de Saúde tem condições de oferecer tratamento digno contra essa doença. Ela foi defendida pela ginecologista do Hospital Guilherme Álvaro (HGA), Andréa Sander. “Depois da paciente passar pela rede básica e ser encaminhada, a gente tinha um gargalo muito grande, que vem desconfigurando na Regional, na própria DRS, para não ter só a referência primária. Porque, às vezes, você tem uma referência secundária que está com vagas disponíveis. Se o HGA está com qualquer especialidade mais cheia, o paciente acaba ficando muito tempo na fila. Então, hoje, ele pode receber atendimento em todas as unidades da rede oncológica, com a facilidade de ser mais próximo de casa”. Para ela, o tratamento oncológico quimioterápico, hormonioterápico e até mesmo as terapias-alvo têm ampliado a disponibilidade no SUS. “Pela minha percepção, ele caminha muito bem”. Ela ressalta, ainda, que, para mulheres a partir dos 40 anos, o ultrassom, talvez, traga muita dúvida diagnóstica de que tipo de lesão realmente é uma lesão com potencial de malignidade ou não. “Normalmente, para mulheres de alto risco, que tenham mutações genéticas, às vezes, o exame recomendado é a ressonância magnética das mamas. A gente vai ter que individualizar muito uma consulta”. Bertioga A secretária de Saúde de Bertioga, Fabiana Paviani, falou sobre o panorama do combate ao câncer na cidade. “Precisamos inserir na cultura das pessoas que a gente tem que procurar o serviço médico quando a gente não sente nada”, afirma. Ela se diz preocupada com o alto índice de absenteísmo (falta a consultas e exames), que, em algumas áreas, supera os 50%. “A gente começa então da rede básica, e nós temos as unidades de Estratégia de Saúde da Família (ESF). E quando é encontrada alguma lesão, nós temos aqui uma unidade de referência de saúde da mulher, onde eu tenho um mastologista. Ele mesmo faz a biópsia, nós temos tudo dentro da saúde da mulher. Essa paciente já sai diagnosticada, estadiada e é colocada na rede Siresp (Sistema Informatizado de Regulação do Estado de São Paulo)”, complementa.