No salão principal da Pinacoteca Benedicto Calixto, convidados do fórum falaram sobre a importância de popularizar espaços (Vanessa Rodrigues/AT) Uma ópera, um concerto de música clássica, um show de rap ou grafite em uma parede. Estas formas de arte parecem ser reservadas a públicos diferentes, sendo as duas primeiras para classes sociais mais altas e as demais, para as baixas. Este tipo de visão ou entendimento, que é real, deve ser combatido, dando lugar à ideia de uma “cultura para todos”. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Tal mudança, que requer a quebra de paradigmas, foi um clamor do escritor, poeta e curador da Casa das Culturas de Santos, Flávio Viegas Amoreira. O especialista defende que é “preciso dar um fim à elitização dos espaços culturais”. As declarações ocorreram durante o décimo fórum deste ano do projeto A Região em Pauta, cujo tema foi Cultura. O evento ocorreu na última segunda-feira, na Pinacoteca Benedicto Calixto, no Boqueirão, em Santos. “Sempre ouvi algo que expressa, de forma quase anedótica, uma síndrome de elitização dos espaços: ‘Tio, posso entrar aí?’. Ou, então: ‘O que que é isso?’. Estas perguntas do público, dos desvalidos culturais, que não têm acessibilidade para conviver em uma pinacoteca, são o maior sintoma”, declarou. O painelista apontou outros problemas. Para ele, faltam equipamentos artísticos em locais em situação de vulnerabilidade. Este cenário, na visão do escritor, aumenta a necessidade de universalização no setor. “Falta política de inclusão, para que cultura não seja sinônimo da burguesia. Precisamos facilitar acesso e capilarizar (distribuir), além de vencer dicotomias”. Desafio Sentado ao lado de Amoreira, o secretário executivo de Cultura, Economia e Indústria Criativa do Estado, Marcelo Assis, admitiu que estas são, de fato, necessidades. Por sinal, o gestor público frisou que “cultura precisa ser para todos, sem escolher classe social e perfil da pessoa”. Segundo o integrante da secretaria estadual, o governo paulista trata a popularização como prioridade. Por isso, desde o ano passado existem esforços no sentido de contemplar todas as cidades com iniciativas. “Temos lutado para isso. Ano passado, batemos o recorde de atividades junto aos municípios. Atingimos 638 cidades - faltaram sete. Este ano, devemos ampliar o número”, previu. Durante sua fala, Marcelo Assis usou o Projeto Guri, que leva educação musical a jovens de 400 localidades, como exemplo de iniciativa que universaliza a cultura no Estado. Embora seja um caso de sucesso, o secretário executivo afirmou que a ação “enfrenta uma grande dificuldade: o ensino em tempo integral. O Guri era uma atividade extra turno. Agora, com a educação em todo tempo, como ele dialoga com o que a sociedade pede e a educação faz? Por isso, temos estudado maneiras de levar o Guri para as escolas”. Apesar disso, ele reconheceu que esta é uma tarefa árdua. Há obstáculos difíceis de serem superados. O secretário-executivo citou um dos empecilhos. “Existe uma dificuldade geográfica. São 645 municípios, e estabelecer uma interlocução com todos é complicado. Além disso, agora, entram novos prefeitos, e teremos de refazer as pontes. Este é um momento fundamental, a fim de estabelecer diálogo com todos os territórios, para, a partir daí, montar proposta adequada para cada região e uma estrutura de política pública capaz de atender os anseios”, afirmou, depois do fórum. Universalizar também passa pela inclusão Universalizar não é apenas levar cultura a indivíduos de classes econômicas diferentes. Este processo também passa por ajustes que permitam que pessoas com deficiência (PcDs) possam apreciar a arte. Por isso, o secretário executivo de Cultura, Economia e Indústrias Criativas do Estado destacou a importância da inclusão no segmento. “Museus têm de trabalhar a acessibilidade no sentido de que qualquer pessoa que entrar ali seja capaz de aproveitar a obra. É levar programas a todas as camadas da população e propor programas que façam sentido”, falou. O ator, produtor e criador do Teatro do Kaos, de Cubatão, Lourimar Vieira, disse que já tem trabalhado para possibilitar que pessoas com deficiência desfrutem das peças. “Em todos os meus espetáculos, incluo indivíduos cegos ou surdos. Em todos, temos libras e audiodescrição”. O artista destacou, ainda, que usar elementos inclusivos é uma determinação de programas financiadores de obras e artes, como o Programa de Ação Cultural (ProAC), do Governo do Estado, e a Lei Rouanet, do Executivo federal. Ou seja, para acessar recursos públicos, é obrigatório tornar os espaços adaptados.