A noite desta quinta-feira pode deixar certos torcedores um tanto nostálgicos. E não é pra menos. Veremos a seleção brasileira se apresentar no Maracanã. Time e estádio perderam prestígio, mas não perderam a majestade. Será, quem sabe, uma noite pra não deixar dúvida de que nas mãos de Carlo Ancelotti a história pode mesmo ser escrita de um modo diferente. Talvez nem todos lembrem, porque é daquelas páginas que pedem pra ser esquecidas, que a última apresentação no templo chamado Mário Filho foi um fiasco danado. Naquela noite, não bastasse a confusão que se estabeleceu no setor sul – e acabou envolvendo os jogadores argentinos preocupados em defender compatriotas e familiares que estavam por lá – pela primeira vez na história das Eliminatórias o Brasil perdeu uma partida jogando em casa. E nem perdemos levando um gol de Messi, o que acabaria por ser mais aceitável. Fomos derrotados por um gol solitário marcado pelo zagueirão Otamendi. Vejam vocês. Aquela noite, que teve o time brasileiro chamado de sem vergonha e olé entusiasmado vindo das arquibancadas quando os adversários teimavam em ficar com a bola, só não soou mais terrível do que a passagem de Fernando Diniz pelo cargo. Ao se despedir, pouco depois, tinha se tornado o primeiro treinador a perder um jogo pelas Eliminatórias, o primeiro a sofrer três derrotas seguidas no torneio e o primeiro a perder para a Colômbia nele. De quebra, tinha colocado por terra uma invencibilidade de 37 jogos do time brasileiro. Justiça seja feita, o castigo de Diniz, ainda que merecido, ganhou os contornos de uma tragédia. E, insistindo em fazer alguma justiça, a Colômbia andava jogando bola. O que não tem sido nem um pouco o caso do Chile, lanterna das Eliminatórias e que chega ao Maracanã no dia de hoje carregando o fardo de ter sofrido até aqui uma dezena de derrotas. Secretamente, até Dom Carlo, homem tão curtido de grandes experiências futebolísticas, há de sentir lhe correr pela espinha uma sensação diferente qualquer na hora em que o túnel lhe entregar a visão de um Maracanã funcionando a todo vapor. Pode até, quem sabe, ter desenhado um time levando em conta todo esse contexto. Um time, não digo mais brasileiro, pois nesse quesito dessa vez se mostrou mais comedido, mas um escrete pra frente, para usar um termo que os que venham mesmo a ficar nostálgicos na noite de hoje vendo a bola rolar irão entender com facilidade. Um verniz de brasilidade que talvez se fizesse bem expresso na figura de Kaio Jorge, que vem roubando a cena com a camisa do Cruzeiro e ocupa neste momento o posto de grande artilheiro do principal campeonato de futebol do País. Não basta ter quatro atacantes, é preciso ter alma. No mais, fico aqui tecendo suposições sobre como veremos a seleção ocupar tão nobre palco. Intrigado sobre como Ancelotti resolverá a questão das laterais, que têm sido uma provação para muitas equipes. E imagino que a intrigante convocação do experiente e improvável Douglas Santos seja de alguma forma uma prova do quanto isso vem mexendo com a cabeça dos treinadores. Pois que jogue o fino se tiver a chance. A fragilidade do adversário sugere um jogo sem maiores complicações, mas costuma morar justamente aí a veia sobrenatural do bendito futebol. E é bom, diante da festa possível, não esquecer que a atribuladíssima história recente da CBF comprometeu todo o ciclo entre uma Copa e outra. Não faz muito tempo – corria o mês de março de 2022 – fechávamos as Eliminatórias, justamente diante do Chile, e no Maracanã, vencendo por 4 a 0 e garantindo a vaga no Mundial do Catar de maneira invicta. O que dá uma ideia muito clara do que andamos vivendo de lá pra cá e a razão do torcedor brasileiro andar meio desiludido. Mas, apesar de tudo, dessa opacidade que a falta de virtuosismo e de beleza depositam sobre a carcaça do nosso escrete, uma noite com seleção brasileira e com Maracanã ainda continua sendo diferente das outras.