(Pixabay) Sei que o assunto talvez não se revele o mais interessante para o torcedor. É compreensível. Mas digo a vocês que a questão do piso sintético segue sendo, na minha opinião, uma grande pauta. E por isso Neymar foi muito bem ao ressuscitar o tema dias atrás. A falta de estudos conclusivos torna o assunto espinhoso. Pesquisando um pouco, como tudo nos dias de hoje, é possível encontrar pareceres a favor e contra. Aceito perfeitamente a validade de quem argumenta que não há provas para se condenar o piso sintético. Mas considero a posição da Fifa um grande sinal de que, mesmo com toda a tecnologia disponível, ele não consegue fazer com louvor o papel de um gramado natural. E, sejamos sinceros, essa condição talvez inadequada de jogo tem sido imposta aos jogadores. Por isso, é de se condenar que a entidade máxima do futebol chancele o piso sintético, mas o proíba nas competições que organiza. Pode haver posição mais ambígua e descarada do que essa? Creio que isso basta para qualquer contestação. Nem precisamos apelar para o fato de que as principais ligas do mundo não querem nem ouvir falar em gramados que não sejam naturais. É uma pena que, inevitavelmente, o assunto se revista quase sempre de um viés clubista. A facilidade na manutenção ampara esse tipo de escolha, não há a menor dúvida. Mas, acima de tudo, influi na questão o gasto, que tende a ser consideravelmente maior no caso da grama natural. Difícil convencer administradores a abraçar uma manutenção mais complexa, e isso só piora quando junto com ela vem também um gasto maior. Feita essa reflexão, só há uma maneira de impor aos clubes o uso do tipo de grama que o futebol usou desde sempre — ou quase: exigir. Um detalhe pouco lembrado quando se fala nesse assunto é que, na tentativa de diminuir gastos, passou a ser cada vez mais comum que os campos das categorias de base tenham piso sintético. E não me espanta que quem é do ramo aposte que as reclamações tendam a diminuir com o tempo, já que as novas gerações se farão mais acostumadas com essa realidade. Mas não é preciso pensar muito para admitir que qualquer vantagem mínima em termos de impacto e qualquer ganho que se tenha em termos de saúde devem ser tratados como suficientes para definir a questão. Nem vou aqui entrar no mérito do jogo. Faça uma averiguação a respeito e facilmente encontrará gente que joga ou jogou, gente credenciada para tratar do tema, falando do quanto o piso sintético transforma o jogo, muda os movimentos e altera sua plástica. Mesmo que dito de maneira velada, com outros termos. Neymar, com toda a patente que tem, bem poderia fazer disso uma bandeira. Possui voz para isso, tem visibilidade, se relaciona bem com os companheiros de ofício e é respeitado por eles. Para além do que conseguirá entregar em campo — o que sabemos depende de um sem fim de fatores — seria uma nobre contribuição para o futebol brasileiro. Nesse momento da história em que nosso jogo de bola é acusado de estar muito aquém daquele que se pratica, em especial nos gramados europeus, seria um modo de, minimamente, fazer o futebol brasileiro mais parecido com o das grandes ligas do planeta. De outro modo, a grana vai continuar definindo o modus operandi, condenando os de agora e os que virão a se apresentar num palco que um dia todos souberam que não era o ideal.