Em agosto, tive a oportunidade de passar uma semana no Pará, participando do Festival Literário Internacional do Xingu (Flix). Lá, estive ao lado de mulheres amazônidas — verdadeiras guerreiras no sentido literal da palavra. Entre elas, Ivonete Coutinho, pesquisadora e recém-titulada professora titular da Universidade Federal do Pará, no campus Altamira. Ela compartilhou a história das mulheres migrantes — esposas, mães e filhas — que enfrentaram enormes desafios durante a construção da Transama-zônica, tema de seu livro, que tivemos a honra de editar. Também conheci as jornalistas Verenilde Pereira, autora de Rio sem fim, recém-lançado; Mônica Serra e Giovana Teles, que falaram sobre a COP30; além das escritoras indígenas Márcia Kambeba e Joana Chagas. Com Joana, tive o prazer de dividir o palco do Flix Curumim, espaço dedicado às crianças, para contar histórias indígenas. Assistir à sua performance — e ver sua narrativa agora publicada em livro, O Dia em que Aprendi a Chamar o Vento — foi uma experiência única. Escritores podem falar sobre tudo. Quando escrevem sobre outras culturas, precisam pesquisar e mergulhar no tema. Ainda assim, suas palavras são sempre um olhar externo. É muito diferente ouvir ou ler a obra de quem pertence àquele território, àquele povo. No livro de Joana Chagas, sentimos a ancestralidade em cada página. É a avó que ensina a neta a chamar o vento — esse espírito criador das culturas indígenas, que traz mensagens, seca a roupa das lavadeiras, anuncia ou afasta a chuva. As cenas evocam o gesto quase ritual de lavar roupa à moda antiga: molhar o tecido, esfregar o sabão, enxaguar na beira do rio, torcer e estender no varal ao sol. Depois de tanto trabalho, só não pode chover. É aí que o vento entra em cena — aliado essencial para garantir o sustento das famílias. Para isso, as lavadeiras assobiam, chamando o vento. E, após a história ser contada de forma poética às crianças, chega o momento da prática: todos aprendem a assobiar. Pedaços de algodão são distribuídos para que as crianças assoprem, sem deixá-los cair no chão. O livro traz ainda um QR code que conduz a uma canção especialmente criada para acompanhar a narrativa. Um convite a ler, ouvir e sentir a história. Serviço O dia em que aprendi a chamar o vento, da autora Joana Chagas. Ilustrações de Érica Corrêa Monteiro. Editora Cromos. R\$ 40,00 *Vanessa Campos. Jornalista e escritora. vanessa ratton@gmail.com