(FreePik) A infidelidade financeira, caracterizada por comportamentos financeiros ocultos ou enganosos entre parceiros, representa uma ameaça significativa à estabilidade das famílias reconstituídas. Um fenômeno crescente que desafia os limites da confiança interpessoal e da estabilidade familiar, especialmente em contextos de famílias reconstituídas. Definida como a ocultação ou manipulação de informações financeiras relevantes entre parceiros — como esconder dívidas, manter contas secretas ou mentir sobre gastos —, essa prática pode desencadear efeitos psicossociais severos e, em certos contextos, implicações jurídicas importantes. Alguns estudos internacionais abordam o tema. Um deles destaca que a presença de enteados e a fusão emocional entre os cônjuges estão associadas a uma maior probabilidade de infidelidade financeira, especialmente entre as esposas. Já outro, publicado no Journal of Financial Therapy, oferece evidências empíricas relevantes sobre o tema ao analisar as dinâmicas de infidelidade financeira entre cônjuges com enteados. Os autores concluem que a presença de filhos não biológicos aumenta a probabilidade de comportamentos financeiros sigilosos, sobretudo por parte das mulheres, quando há uma forte identificação emocional com o parceiro. No contexto brasileiro, a infidelidade financeira pode ter implicações legais relevantes. O Código Civil estabelece que os cônjuges têm o dever de mútua assistência e colaboração na administração do patrimônio comum. A ocultação de bens ou dívidas pode ser interpretada como violação desses deveres, podendo influenciar decisões judiciais em casos de separação ou divórcio. Além disso, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) enfatiza o dever dos pais de prover o sustento dos filhos. Em famílias reconstituídas, a gestão financeira transparente é essencial para garantir o bem-estar de todos os membros, incluindo os enteados. A infidelidade financeira pode comprometer esse dever, afetando negativamente o desenvolvimento das crianças envolvidas. A relevância dessa temática é ampliada diante de transformações contemporâneas nas estruturas familiares. Famílias reconstituídas — aquelas formadas por casais em que pelo menos um dos cônjuges tem filhos de relacionamentos anteriores — enfrentam desafios únicos de integração emocional, lealdade dividida e reorganização de recursos. A infidelidade financeira, nesse cenário, revela-se como sintoma de insegurança, competição por recursos e dificuldade de negociação entre membros do novo núcleo familiar. Do ponto de vista da psicologia financeira, comportamentos de infidelidade financeira podem estar relacionados à ansiedade financeira, à aversão ao conflito e a traços de impulsividade. Esses aspectos requerem não apenas atenção jurídica, mas também intervenção interdisciplinar. *Ahmed El Khatib. Professor da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap)