(Pixabay) “Epitáfio”, de Sérgio Brito e Tony Bellotto, nos lembra que a maior tragédia não é morrer — é perceber tarde demais que fomos vivendo pela metade. Quando a ideia de finitude deixa de ser sombra e se torna presença, ela muda o modo como respiramos. Pede que a vida volte a caber em nós, e não no que esperam de nós. Durante anos acreditamos que viver bem era cumprir tarefas, empilhar títulos, manter corpo exausto e a agenda lotada. E, quando percebemos, já estamos afinados a um ritmo que não escolhemos. Talvez por isso, “Epitáfio” provoque tanto desconforto. Ele desmonta a ficção de que a vida é um formulário a preencher. E esfrega no rosto a pergunta que adiamos enquanto cumprimos tudo o que dizem ser importante. Para quem foi educado a preservar vidas, essa pergunta pesa mais. A formação médica, às vezes, nos veste como se fôssemos indispensáveis, convocados a salvar antes de viver. O jaleco vira armadura, o plantão vira país, o hospital vira o centro do mundo. E o que cabe nesse mundo vai ficando nas bordas: a conversa que ficou para amanhã, a gentileza adiada, a noite de sono inteiro, ou simplesmente o direito de não fazer nada. Reconhecer isso não significa culpa; mas maturidade. Talvez a sabedoria esteja numa reconciliação delicada entre o que pensaram que éramos, o que fomos obrigados a ser e o que ainda podemos escolher ser. A finitude, então, não funciona como bússola, torna-se coragem para admitir que ainda há tempo de fazer diferente, de cultivar relações mais gentis, de desacelerar o passo, de pedir perdão, de dizer “não”, de inventar novos sentidos. A culpa só se instala quando esquecemos que a vida também vale a celebração de seus amores, desvios, tropeços e estranhamentos. Viver plenamente não é acertar sempre, é não desperdiçar o que ainda resta. As tradições espirituais intuem há séculos. Cada uma à sua maneira oferece caminhos de retorno: o perdão, no cristianismo e no Islamismo; a possibilidade de recomeçar, no hinduísmo e no budismo; a teshuvá, no judaísmo como gesto radical de reorientação. Todas admitem o erro e apontam um caminho de volta, não para o passado, mas para si. No fim, talvez viver após o jaleco seja simplesmente isso: desmontar o mito da perfeição e recuperar o direito elementar de ser gente, imperfeita, limitada, viva. *Marcio Aurelio Soares. Médico