( Vidar Nordli-Mathisen/Unsplash) Tenho percorrido o mundo como guia de turismo há anos e, de todos os ensinamentos que essa profissão me trouxe, talvez o mais importante seja que viajar é muito mais do que visitar um lugar - é interagir com ele. Cidades turísticas não são parques de diversão sem regras; são lugares vivos, com moradores, rotinas, tradições e sensibilidades que merecem ser respeitadas. Nos últimos anos, temos visto notícias de cidades famosas no mundo todo que estão endurecendo o tratamento aos turistas, como Barcelona, na Espanha, Veneza, na Itália, e Kyoto, no Japão. Algumas cidades criaram restrições severas, outras limitaram acessos, e há até casos em que a hostilidade é visível nas ruas. Grande parte dessas reações nasceu do chamado overtourism, que em português significa “sobreturismo” ou “turismo em excesso”, algo para ser tratado pelas autoridades públicas junto com a sociedade civil e os mais diversos componentes da cadeia econômica do turismo. Mas esta não é a única razão das cidades e seus moradores quererem barrar os turistas. A realidade é que a falta de consciência de muitos viajantes sobre como se portar nos destinos é uma causa direta dessa “revolta”: barulho excessivo em áreas residenciais e lugares públicos, lixo deixado em praias e praças, fotografias tiradas em locais sagrados sem permissão, gestos desrespeitosos e trajes inadequados são exemplos comuns de atitudes que, mesmo sem má intenção, causam incômodo e desgaste. O turista precisa entender que, ao visitar um destino, ele é um convidado. E como todo convidado, deve se adaptar às regras e costumes da casa que o recebe. Isso significa pesquisar antes da viagem quais são os hábitos locais, aprender palavras básicas do idioma, respeitar normas de vestimenta em locais religiosos, evitar fotografar pessoas sem consentimento e cuidar para não transformar espaços de convivência em palco para comportamentos invasivos. O respeito ao destino também envolve consciência ambiental. Abandonar lixo, usar recursos de forma irresponsável ou contribuir para a degradação de áreas naturais é, no mínimo, uma falta de gratidão com o lugar que está nos proporcionando momentos únicos. Quando um turista se comporta mal, o impacto vai muito além de sua própria experiência. Ele contribui para criar um estereótipo negativo sobre visitantes e sobre nacionalidades, o que afeta quem virá depois. Em alguns casos, basta uma minoria mal-educada para transformar um destino antes receptivo em um lugar impaciente e fechado ao turismo. Outro ponto que precisa ser discutido é a responsabilidade dos influenciadores digitais. A busca por “lugares secretos” e “comércios escondidos” para atrair visualizações nas redes sociais tem levado turistas a invadirem espaços que, até então, eram frequentados majoritariamente por moradores locais. Essa exposição repentina muda a dinâmica do ambiente, eleva preços, descaracteriza o lugar e, muitas vezes, afasta os clientes que mantinham aquele comércio vivo. O resultado é um sentimento crescente de repulsa ao turismo, pois o que antes era um ponto de encontro da comunidade passa a ser visto como território tomado por visitantes, apagando sua essência original. A viagem perfeita não é apenas aquela em que levamos boas lembranças para casa, mas também aquela em que deixamos boas impressões para quem nos recebeu. Viajar exige mais do que dinheiro e disposição; exige empatia, sensibilidade e responsabilidade. Porque um destino, por mais bonito que seja, nunca é apenas cenário. Ele é lar. E lares merecem respeito. *Pedro Braun. Guia de turismo internacional, empresário e advogado.