() Maurici e Michele se conheceram nas areias escaldantes de Copacabana. Nos barzinhos noturnos do bairro famoso foram transformando a amizade em paixão e a paixão em amor. Eles não poderiam ser mais diferentes. Michele era calma, tranquila, segura de si e sem nenhum problema mais sério com ciúme. Já Maurici era inseguro, ansioso e com inquietações absurdas naquele último quesito. Mas havia um ponto em comum: ambos se amavam muito. E estavam dispostos a tudo para que o romance desse certo. Desde o início o ciúme exagerado de Maurici começou a envenenar a relação. Michele, compreensiva, procurava minimizar as consequências do espírito obsessivo do seu parceiro. Maurici se desculpava. Mas sempre alegou que seu desvio de personalidade estava acima das suas forças. Quando percebeu, com sua sensibilidade aguçada, que os riscos de um desfecho negativo se acumulavam, ela resolveu tentar convencer Maurici do seu imenso amor. Optou por um recurso em franco desuso. Mas que poderia ter uma vantagem. Transformar-se em algo sobre o qual seu namorado poderia meditar muitas vezes. A carta foi o modelo escolhido. O texto: “Meu olhar mergulhando no seu produziu uma mágica inquebrantável. Quando eu mergulho assim, não há nada que possa interferir ou fazer desandar, nem mudar a trajetória. Uma poção transmitida pelo olhar tem o magnetismo dos deuses e das deusas. Agora você já sabe que sou uma pequena fada. E você está fadado a me amar para todo o sempre. Outro dia fiquei com uma dúvida e peço que você esclareça. Ei, garoto! É impressão minha ou rolou um certo ciúme? Se foi isso, é bem desnecessário. Você tem um lugar único no meu coração. Há pessoas que chegam na nossa vida com um perfume raro. Promovendo encantamento. Você faz falta. E faz parte”. A carta foi lida por Maurici diante de Michele. E ele deu sinais de profunda emoção. Prometeu, solenemente, reprimir seu ciúme neurótico. E agir com um mínimo de confiança. Mas, como sempre, deixou a ressalva. Ao fim e ao cabo seu ciúme acabava prevalecendo. E colocando ponto final a todos os seus relacionamentos. Um episódio deu a Michelle a verdadeira dimensão do enorme problema que afligia seu namorado. Uma tarde tórrida de sábado, no apartamento de um deles, sua amada chegou à sala de calcinha e soutien. Nada mais normal. Fazia parte da intimidade do casal. Não para Maurici. Ele perdeu o controle e começou a gritar: “Vá por uma roupa!” E apontando para a televisão ligada: “Os homens do programa podem te ver quase nua. E isso eu não admito”. Michele achou que era loucura demais. E colocou um fim na relação esquizofrênica. *Carlos Conde. Jornalista