(Imagem gerada por IA) Vivemos em um tempo marcado pelo excesso de opiniões, pela sobrecarga de sons e imagens. A rapidez se transformou em virtude. Tudo deve ser imediato, acessível e funcional. A informação se renova a cada minuto e até o lazer parece submetido à lógica da urgência. Talvez por isso, abrir um livro em algum momento do dia parece muito mais um gesto que contraria o ritmo do mundo do que a escolha deliberada por um espaço de silêncio e escuta. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Há dias em que, em meio a tantos afazeres, vou à estante, pego um livro e início a leitura, mesmo sabendo que não irei longe. Percorro poucas páginas, às vezes um único parágrafo, e sou logo interrompida pelo ruído da casa ou pela dispersão inevitável do mundo. Ainda assim, permaneço ali por alguns minutos, como quem sustenta uma pausa. Mesmo breve, sinto que essa leitura já instaura outro ritmo, uma suspensão quase imperceptível do tempo exterior. Ler não é um ato compatível com a pressa. O livro não se deixa atravessar apressadamente sem perda de sentido. Ele solicita uma forma de atenção que contraria o ritmo dominante: pede silêncio, demora, disponibilidade interior. Talvez por isso a leitura hoje seja menos um hábito espontâneo e mais um gesto deliberado, quase uma escolha ética. Diferentemente da notícia, que nasce destinada a envelhecer rápido, o texto de um livro convive bem com o tempo longo. Um romance escrito há décadas ainda nos interpela; um poema atravessa gerações sem perder sua pulsação essencial. O tempo literário não corre em linha reta: ele se dobra, retorna, aprofunda-se. Cada leitura reinscreve o texto num presente sempre renovado, como se o livro aguardasse, pacientemente, o leitor que virá. Proust nos mostra que o tempo não se perde: ele se esconde. Basta um gesto mínimo — um sabor, uma frase — para que anos inteiros retornem à superfície. Calvino nos lembra que um clássico é aquele livro que nunca termina de dizer o que tem a ser dito. Borges, por sua vez, ensina-nos a desconfiar do tempo linear, sugerindo que ele pode ser circular, feito de retornos e espelhos. Observa-se também que existe algo assumidamente anacrônico no livro, e isso não é um defeito. O papel, a margem, a pausa entre um parágrafo e outro constituem uma experiência que resiste à aceleração contínua. A leitura, e por extensão a literatura, não competem com a velocidade do mundo; elas nos oferecem outra medida. Conviver com os livros, manter o hábito da leitura — a par do conhecimento que ela nos possibilita —, é, assim, aceitar uma outra temporalidade. É permitir que o tempo deixe de ser apenas sucessão de instantes para tornar-se experiência. É perceber que nesse intervalo, discreto e resistente, reencontramos um tempo mais denso, mais humano, onde ainda é possível permanecer. * TAÍS CURI. Jornalista, escritora, presidente da Academia Santista de Letras e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santos