(Divulgação) Quando a crise chega, o Brasil procura um bote salva-vidas. E, quase sempre, encontra abrigo no mesmo lugar: o canteiro de obras. É ali, entre o barulho das betoneiras e o cheiro de cimento fresco, que a economia nacional costuma reaprender a respirar. A construção civil é o pulmão que se enche de ar quando o País sufoca. Foi assim em 2008, foi assim na pandemia, e parece que será assim de novo agora. O governo anunciou no dia 10 um pacote robusto para reaquecer o crédito imobiliário. As mudanças nas regras da poupança devem injetar cerca de R\$ 40 bilhões no setor nos próximos dois anos. Pode parecer apenas mais um número, mas é muito mais que isso. É a engrenagem voltando a girar. Quando o pedreiro tem obra, o servente compra pão, o dono do bar vende almoço, o caminhão de brita roda, e a cidade se move. O novo modelo eleva o teto do Sistema Financeiro da Habitação (SFH) de R\$ 1,5 milhão para R\$ 2,25 milhões, e aumenta a cota de financiamento para 80% na modalidade SAC e 70% no Price. Traduzindo: mais gente pode financiar, e o dinheiro começa a circular. É matemática simples com cheiro de esperança. Mas o pano de fundo desse movimento é mais profundo — e, como quase tudo no Brasil, nasce de um conserto feito às pressas. Lá atrás, quando o governo criou o saque-aniversário do FGTS, a ideia parecia boa. Permitir ao trabalhador acesso ao próprio dinheiro é mais do que justo. O que parecia liberdade acabou drenando o tanque de combustível que alimentava a construção civil. O dinheiro saiu do sistema antes de virar tijolo. A Caixa, que vinha sentindo a falta do oxigênio, volta a respirar. O país só cresce quando há telhado sendo levantado, parede subindo e gente comendo no fim do expediente. O Minha Casa, Minha Vida segue como vitrine social e motor econômico. No fim, o recado do governo é claro em precisar fazer o dinheiro girar sem medo. Poupança parada não constrói nada. O tijolo precisa da argamassa do crédito, e o crédito precisa de confiança. O Brasil é um país curioso. Demora para aprender que construir é mais do que erguer prédios — é erguer ânimo. Cada metro de laje levantado é um pedaço de PIB, um respiro no desemprego, uma injeção de autoestima coletiva. Pode não ser poesia, mas é o que sustenta o País quando todo o resto desaba. *Gregório José. Jornalista, radialista e filósofo