(Pixabay) Entre mais de 20 mil títulos circulando diariamente no mundo digital, a escolha do público insiste em olhar pelo retrovisor. Não é distração, é sintoma. As músicas mais tocadas, revisitadas e salvas pertencem, em larga medida, ao passado. O dedo que desliza na tela procura aquilo que já conhece, como quem busca abrigo numa casa antiga enquanto o presente insiste em mudar de endereço a cada semana. Pode-se chamar de saudosismo, mas talvez seja apenas critério. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Há algo desconfortável para a indústria nessa preferência. Ela produz em velocidade industrial, empilha lançamentos, acelera tendências e, ainda assim, perde para canções compostas quando o tempo era mais lento e o silêncio tinha valor. A explicação fácil diz que o público romantiza o passado. A mais honesta admite que muita coisa ficou pelo caminho. Letras que diziam algo, melodias que pediam escuta, vozes que não precisavam gritar para existir. Hoje, a urgência substituiu a intenção, o algoritmo virou produtor e a canção, produto descartável. O consumo atual é rápido demais para criar vínculo. A música entra como entra um anúncio, ocupa segundos, cumpre sua função e some. Não há espaço para amadurecimento, para a repetição afetiva, para a construção de memória. As canções antigas resistem porque já passaram por esse crivo. Elas sobreviveram ao tempo, coisa que o hit da semana ainda não teve coragem de enfrentar. O público, mesmo sem teorizar, percebe isso e escolhe com o ouvido e com a lembrança. Há também um cansaço estético. O excesso de fórmulas, a pasteurização de temas, a produção que prioriza impacto imediato em detrimento de profundidade. Quando tudo soa igual, o ouvido foge para onde havia diferença. Não é que não existam bons artistas hoje. Eles existem. O problema é o ruído que os cerca, a pressa que os engole e o sistema que pede viralização antes de verdade. A música do passado não vence apenas por nostalgia, vence por densidade emocional. Ela carrega histórias, contextos, conflitos e afetos que ainda conversam com o presente. O mundo pode ter mudado, mas a experiência humana continua pedindo sentido, e isso não se resolve em refrões fabricados para 15 segundos de atenção. *Gregório José. Jornalista, radialista e filósofo