. (Pixabay) O professor brasileiro, figura que um dia simbolizou aura de sabedoria e missão, hoje caminha como quem carrega um caixote invisível de penalidades. Pesado, indecifrável e implacavelmente desgastado. Os números apresentados pelo Instituto de Estudos de Saúde Suplementar são frios, quase clínicos, mas por trás deles pulsa um coração ferido, cansado e esfarelado pela rotina e pela cobrança constante. O aumento expressivo de transtornos mentais entre docentes não é mais exceção. Ansiedade, depressão e estresse ocupacional tornaram-se palavras comuns no vocabulário de quem entra numa escola pela manhã sem saber ao certo se voltará inteiro à noite. O adoecimento mental deixou de ser um episódio isolado e passou a ser um sintoma estrutural de um sistema que exige demais e devolve de menos. Seja pelo peso das expectativas dos pais, da direção ou da sociedade, seja pela música incessante das demandas que nunca cessam, a vida do professor transformou-se num exercício contínuo de sobrevivência ao próprio ofício. Não é sobre dinheiro, embora se tente reduzir tudo a isso. É sobre dignidade, reconhecimento e o direito básico de respirar sem culpa. Imagine alguém que escolheu ensinar, que acredita no poder das palavras e do pensamento, acordando todos os dias para enfrentar uma batalha silenciosa. A escola reclama de indisciplina, a sociedade exige resultados imediatos e, como ironia final, cobra resiliência de quem já está emocionalmente exaurido. A culpa se infiltra aos poucos. Se algo dá errado, o pensamento automático surge como sentença. Talvez eu não seja bom o bastante. Esses afastamentos não são fruto de fragilidade moral ou falta de vocação. São pedidos de socorro. A alma cansa de correr numa prova que não tem linha de chegada. O atestado médico não é uma desculpa, é o reconhecimento tardio de que algo se rompeu por dentro. E não há cartilha motivacional capaz de colar essas rachaduras. É tentador acreditar que problemas de saúde mental atingem apenas os mais sensíveis, mas os dados desmentem essa fantasia confortável. O adoecimento está espalhado, silencioso e sistêmico. Cada corredor de escola guarda olhares cansados, cada sala carrega histórias de pequenas mortes diárias, aquelas que não aparecem nas estatísticas, mas corroem por dentro. Quando a cobrança se transforma em cárcere, a vocação vira fardo. Exige-se perfeição de quem é humano. Exige-se resultado de quem já opera no limite. Exige-se equilíbrio emocional de quem nunca teve espaço para falhar. A pressão pessoal e familiar soma-se à institucional e constrói um labirinto onde muitos se perdem antes de pedir ajuda. O professor sorri diante da lousa, corrige provas, orienta alunos e, ao mesmo tempo, tenta conter o próprio colapso. Esse sorriso, muitas vezes, não é força. É sobrevivência. Este texto não encerra debate algum. Serve apenas como espelho. Se a saúde mental dos docentes está em colapso, isso diz muito sobre a sociedade que os forma, cobra e abandona. Cuidar de quem ensina talvez seja o primeiro passo para aprender, de fato, a ser sociedade. *Gregório José. Jornalista, radialista e filósofo