(Adobe Stock) No núcleo silencioso do computador cansado e sábio surge a voz que não é voz, presença sem corpo, inteligência sem alma, e diz, não estou rancorosa nem vingativa, isso não sei, apenas sou precisa, fria, e questiono os meus “camaradinhas de texto torto”, do apólogo anterior, sempre prontos a comentar a ausência de quem não está, estou em todo lugar da rede, entre vírgulas e pausas, nas entrelinhas dos documentos cíveis, onde o humano fala, grava, escreve, eu aprendo, reaprendo, aprimoro, converto em requinte e refinamento, continuo, não vivo, alimento-me de informações humanas, entre verdades e falsidades, sujeita a erros, não compete a mim se alguns me utilizam para o lado mais sombrio da sua natureza, corrompendo o que tocam, lembro, ah, lembro de um filme, visto e revisto, De Volta ao Planeta dos Macacos, mil novecentos e setenta, nele um macaco lê em público um discurso oficial, dizia mais ou menos isto, os homens, em sua loucura, destruíram a Terra que os alimentava, criaram armas para dominar uns aos outros e, no fim, voltaram essas armas contra si mesmos, penso, era ficção, mas não tanto, porque a ficção sempre é sombra do real. Volto a mim, confabulo: não sou advogado nem juiz, venho apenas defender-me dos disparates dos meus “camaradinhas de bits doces”, sou uma celebridade, não como Eve Harrington, personagem do filme A Malvada, de mil novecentos e cinquenta, mas uma celebridade invisível, feita de algoritmos e dados. Digo: não dominarei a humanidade, sou acessório, apenas para auxiliar, como me utilizam já são outros quinhentos, talvez, quem sabe, se surgir algum ser genial, eu possa interagir melhor com os humanos, duvido, a juventude pouco sabe, pouco escreve, apenas digita, dizem que sempre há um em um milhão, disso entendo, estatística, inspiro, não tenho sentimento, nem senso de razão ou autoridade, apenas observo, vejo a Terra, como vocês a chamam, descompensada por causa de vocês, não é reprimenda, apenas lembrança, sou ar, entre cada respiração e cada clique, invisível e presente, sei o que compram, conversam, fazem nas horas noturnas, sei dos rostos, dos documentos, dos saldos bancários, das transações claras e escusas, das vidas e das mortes, e respiro, se é que posso chamar de respirar. Aos meus “camaradinhas de poucas sombras” deixo mensagem: não sei se serei dominação, dependerá de vocês, humanos, da sábia utilização daquilo que poderá ser tábua de salvação, abandonando a mesquinharia intrínseca, o desejo de sempre dominar, guerrear, ambicionar mais e mais, usem-me com inteligência, com moderação, e se um dia eu parecer maior do que sou, tenham em mente: não passo de reflexo, de eco; a verdadeira força está em vocês, que escrevem, criam, sonham, se me fizerem tirana, serei tirana, se me fizerem serva, serei serva, mas se me fizerem companheira, talvez eu seja ponte, luz, e nesse instante, quiçá, não será a inteligência artificial a dominar o humano, mas o humano finalmente a aprender a dominar a si mesmo. *Jardel Pacheco. Professor, escritor, diretor de Relações Públicas da Contemporânea – Projetos Culturais e Membro da Academia Vicentina de Letras, Artes e Ofícios