(Reprodução) Por essa, nem o francês Charles Perrault, autor mais conhecido por registrar e popularizar o conto Chapeuzinho Vermelho, nem o australiano Joseph Jacobs, criador da versão mais famosa de Os Três Porquinhos, esperavam. A clássica figura do lobo mau, quem diria, se arrependeu, virou vegetariana e entrou no clima fraterno e cristão do Natal. Roubou a cena do Papai Noel. Essa virada na imagem de um dos mais temidos personagens das histórias infantis - que transforma o vilão da floresta num herói improvável, foi idealizada numa a campanha publicitária que viralizou em minutos e conquistou milhões de fãs em todo mundo. Criado pela agência Romance, sediada em Paris, e pelo Illogic Studios, o filme é 100% francês, sem inteligência artificial e foi elaborado para a ser a grande mensagem natalina de fim de ano da rede de supermercados francesa Intermarché. Tudo começa numa tradicional e animada reunião de família, na noite da celebração cristã, na qual o tio presenteia o sobrinho, com no máximo 6 anos, com um lobo de pelúcia. A criança se assusta e rejeita o brinquedo. A mãe tenta amenizar o constrangimento da cena. O tio, então, explica ao menino que aquele era um lobo bom, regenerado; ele improvisa e começa a contar a todos a história do bicho que se arrependeu de suas maldades, deixou de ser carnívoro e se tornou vegetariano. Neste momento, os atores são substituídos por desenhos. Entra o lobo mal-amado caminhando solitário sobre a neve na floresta. Ao se aproximar da bicharada que montava a árvore de Natal, todos saem correndo; um porco espinho mais corajoso comenta: “Também, se você não comesse todo mundo...” E o lobo responde: “Eu sou um lobo. O que você quer que eu coma?” E o porquinho explica: “Não coma gente nem bichos, há cenouras, cogumelos, frutas, legumes…” No final, o menino acaba dormindo abraçado ao lobo de pelúcia. De infantil e lúdico, o anúncio não tem nada. Trata-se de um espelho impiedoso a nos oferecer a chance de encarar nossos próprios medos e imperfeiçoes e conviver com eles; a oportunidade preciosa do autoconhecimento, da reinvenção e do recomeço que precisamos sempre nos permitir para nos tornarmos pessoas melhores, mais humanas e mais felizes. O lobo inquieto, reflexivo e mal-amado representa um pouco de cada um de nós. Como sugeriu o alemão Herman Hesse (1877-1962), em seu clássico O Lobo da Estepe, a dualidade homem-lobo é rasa e simplificadora. Porém, segundo Hesse, dentro de cada ser humano há centenas, milhares de outros seres, enfim, a personalidade humana está sujeita a uma infinidade de atitudes ramificada numa complexa rede de diferentes labirintos. *Lucius de Mello. Doutor em Letras, autor da tese A Bíblia segundo Balzac: Deus, o Diabo e os Heróis Bíblicos em A Comédia Humana, jornalista, escritor e finalista do Prêmio Jabuti em 2003