O grande Jorge Luis Borges escreveu algo brilhante: “Quando os escritores morrem, eles se transformam nos seus livros. O que, pensando bem, não deixa de ser uma forma interessante de reencarnação”. A sabedoria da descoberta foi a de compreender que o livro permanece imaculado em nossa alma, colando eternamente o autor e suas palavras em nossa existência. Paciente, estará sempre nos aguardando, pois as folhas amarelam, mas as letras não desaparecem. Aliás, repousam calma e docilmente ali na estante. Os diálogos embalados nas interações das palavras e letras da primeira leitura vagueiam pelas memórias, misturados a tantas lembranças e sentimentos do viver. Inalterados e ativos, os conteúdos estão fixos nas folhas e nos reencaminham para a mágica do reencontro com as lembranças confortantes. Assim, Guimarães, Flaubert, Pessoa, Vinicius de Moraes (e tantos outros) já partiram, mas continuam perenes na memória dos leitores! Etéreos, são eternos! Estão reencarnados! A experiência humana é múltipla em estímulos variados. No turbilhão de imagens e ruídos incessantes do cotidiano, as lógicas orgânicas selecionam as informações continuamente, num delicado processo mental que separa em tonalidades múltiplas as emoções objetivas das emotivas. No tempo corrido, as variadas roupagens e as inúmeras formas de desvios nos distraem da essência sutilizada. A racionalidade imposta pela objetividade do real assume controle e se torna impossível evitar as modelagens formais da convivência coletiva definida por desempenhos e comportamentos de superioridade fluídica. Todavia, no fim do expediente, os sentidos cobram: "o que sobrou disto tudo"? De fato, solitários e cansados, só resta a realidade da retirada das máscaras postiças, encarando a inevitável crueza das mentes sedentas por carinho e calor. “Au secours: Um livro, por favor”! A sabedoria de desviar dos descaminhos leva para dentro, na aceitação da viagem única que cada um pode fazer, acalentando a missão original que é a de ser feliz, pacífico, autêntico e amoroso. São muitos os predicados que absorvi nos livros, atento aos sentimentos das iluminadas almas que escrevem para o sempre brilhar, quando as luzes são débeis ou estão inatingíveis. Nesses tempos delicados e sensíveis procuro a companhia do escritor que fala fundo comigo e me acalenta e um olhar perdido indaga: “cadê aquele autor que sempre me faz companhia e me nutre?” Encontrei-o! Não estou só! Ele vive, está aqui e me faz companhia. *S.Squirra. Jornalista, ex-docente da ECA/USP e escritor