(Carlos Nogueira/ Arquivo Prefeitura de Santos) Escritores e estudiosos das várias vertentes literárias se reúnem há meses na Casa das Culturas de Santos há meses para explorar um autor e sua obra. Recentemente, o reverenciado foi o cronista João do Rio, um jornalista que, nos jornais cariocas, inaugurou um jeito de falar com os leitores, surgindo daí a crônica, entre o final do século 19 e o começo do século 20. Suas histórias diárias baseavam-se em anotações e curiosidades que colhia nas ruas. Era o chamado flâner em francês, significando flanar. A rua, de fato, sempre foi um local onde as coisas acontecem. No último domingo essa imagem do João do Rio ficou muito nítida para mim. Aguardando o início da sessão do cinema do Posto 4, no Gonzaga, vários acontecimentos se desenrolaram. Um, em especial, teve uma espécie de destaque. Um rapaz, que parecia ser uma pessoa em situação de rua, se aproxima e pede dinheiro para comprar comida, segundo ele. Não parecia alcoólatra. Demos uns trocados, mas chamou a atenção que ele carregava um livro. Pedi que ele me falasse que livro era aquele. A surpresa é que ele estava com Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. Aí comecei a querer saber sobre o que ele conhecia da obra. Ele disse ser uma leitura difícil e que precisava ler mais de uma vez para entender, mas que considerava o autor um grande poeta. Eu o interpelei para dizer que a obra foi adaptada para o teatro na década de 1950, mas ele desconhecia. Imaginei o rapaz como um Severino retirante, como tantos outros que fugiram do sertão em busca de uma oportunidade. Ele, na verdade, era o Luís Silva, e o que lhe restava era ler com a claridade do sol ou pela luz da lua, em noites de brisa, nos bancos do jardim, quem sabe conseguindo voar no ritmo da canção Funeral de um Lavrador, trilha sonora de Chico Buarque na versão teatral da obra. Saindo do meu devaneio, e na continuidade da conversa, fiquei sabendo que ele adquirira o livro no ponto do ônibus e que pegava sempre outros títulos. E continuou a falar sobre outros assuntos. Percebi que esse rapaz deve ter ido parar na rua por algum infortúnio, mas consegue olhar o mundo com alguma beleza. E me fez pensar - quantos Silvas encontram nos livros ainda uma forma de sobrevivência, não do corpo, mas da alma? Uma verdadeira lição do que a literatura pode colaborar com seus conteúdos. O mais interessante é que o filme que assisti em seguida falava justamente sobre conseguir enxergar e expressar sentimentos a respeito do cotidiano, com trechos de poesias. O filme coreano As Aventuras de uma Francesa na Coreia corroborou o domingo. Tudo se encaixou e deu uma bela reflexão de fatos ocorridos tão recentemente, sendo inspiração para esta crônica. *Eunice Tomé. Jornalista e escritora