(Reprodução/ Pixabay) Mentir para militantes movidos pela idolatria, para uma população com baixa escolaridade ou até para setores da imprensa generosamente recompensados para repetir determinadas narrativas é relativamente simples. É contar algo a quem já escolheu não questionar. Mas imaginar que esse mesmo enredo será aceito por autoridades estrangeiras, jornalistas independentes e profissionais habituados ao rigor analítico é outra história — e bem menos confortável. A essas audiências, não basta repetir slogans. Eles trabalham com fatos, jurisprudência e, principalmente, com o velho hábito de desconfiar de versões muito convenientes. Dizer, por exemplo, que o presidente “não teve direito a ampla defesa” ao longo de todo o processo pode até funcionar para quem só lê manchetes de redes sociais. Porém, para observadores internacionais, isso soa tão convincente quanto tentar persuadir um físico de que a gravidade é opcional nas segundas-feiras. Ao longo das diversas instâncias do julgamento, o então réu contou com um advogado combativo, que protagonizou embates acalorados e tentou todos os recursos possíveis. Em três instâncias diferentes, não obteve sucesso. Em ambientes jurídicos sérios, resultados consistentes costumam indicar algum fundamento. No entanto, aqui a história ganha contornos quase cinematográficos, ao chegar ao Supremo Tribunal Federal tudo mudou. A reviravolta foi tão impressionante que faria roteiristas de Hollywood repensarem o final — a ponto de o próprio advogado, outrora derrotado em série, sair do processo diretamente para uma cadeira na mesma Corte. É como se o técnico de um time rebaixado fosse promovido a presidente da federação: possível, sim, mas digno de levantar uma sobrancelha ou duas. E como observadores estrangeiros, jornalistas e analistas políticos reagiram a esse desfecho? Com natural perplexidade. Lá fora, decisões tão contraditórias costumam acender alertas, não aplausos. Imagine-se no lugar deles: você acreditaria piamente nessa narrativa ou pediria, no mínimo, um apanhado técnico, documentos, prazos e talvez até um cafezinho forte antes de emitir opinião? A verdade é que, para plateias mais críticas, histórias improváveis não se sustentam apenas com convicção — precisam de lógica e alguma harmonia com os fatos. Caso contrário, soam como aqueles filmes em que o herói enfrenta três explosões, duas quedas de arranha-céus e um tubarão, mas termina a trama totalmente ileso. *William Horstmann. Engenheiro, ex-executivo e consultor