Gilberto Mendes (1922-2016), um dos compositores mais ousados da música erudita brasileira e um dos pioneiros das chamadas música-teatro, aleatória e concreta no País. Nascido em Santos, aos 19 anos iniciou seus estudos de piano e teoria musical, influenciado por Antonietta Rudge e Cláudio Santoro. Nos anos 1960, a partir do Manifesto Música Nova, ingressou no Grupo Música Nova ao lado de Rogério Duprat, Willy Corrêa de Oliveira e outros vanguardistas. Essa fase marcou a ruptura com o nacionalismo tradicional e a abertura para técnicas européias: aleatoriedade, música concreta, uso de objetos cênicos, criando um discurso estético que dialogava com a cultura pop e a poesia concreta. A obra de Mendes caracteriza-se por uma linguagem híbrida, na qual as partituras, gestos, luz e palavra criam performances que beiram o happening. Em Beba Coca-Cola (1967), ele transformou o poema concretista de Décio Pignatari em um moteto coral que satirizava a cultura de massa, inserindo trechos de anúncios publicitários e sonoridades urbanas. Em Santos Football Music (1969) levou os sons de um estádio de futebol para a sala de concerto, usando gravações de torcida em fitas magnéticas e instrumentos ao vivo, antecipando o que hoje poderíamos chamar de ‘performance multimídia’. Outras peças de Gilberto Mendes como Cidade (1964), Son et Lumière (1968), O Último Tango em Vila Parisi (1987) e Música de Brinquedo (1975), exploram a teatralização da obra musical. Mendes via a música como um jogo de descoberta no qual o acaso, previsível, tem seu lugar. Em entrevistas, enfatizava que, se não fosse músico, teria sido cineasta. Sua paixão pelo cinema faz-se notar nas texturas sonoras e nas montagens de suas peças, sempre buscando romper a barreira entre o palco e o cotidiano, muitas vezes com a participação da plateia. Essa visão o colocou como ponte entre o erudito e o popular, influenciando gerações de compositores, intérpretes e artistas visuais. Gilberto Mendes recebeu o Prêmio Carlos Gomes, foi comendador da Ordem do Mérito Cultural, integrou a Academia Brasileira de Música e ainda teve sua obra Beba Coca-Cola incluída no repertório de coros universitários de todo o país. Grupos corais, tendo como destaque o Madrigal Ars Viva, criado em 1961 sob a tutela de Gilberto, levaram ao público diversas composições de vanguarda. Aliás, o Ars Viva tornou-se um laboratório de experimentos e de divulgação da Música Nova. Dez anos após a sua partida, Gilberto Mendes continua a ressoar nas programações de festivais contemporâneos. Projetos como o Festival Música Nova, realizado a partir de 1963, com diversas reedições e readaptações, reavivam a memória, mostrando que a linguagem híbrida ainda dialoga com o presente. A riqueza de sua produção garante que o legado do compositor santista permanece bem vivo, inspirando novos caminhos para a música erudita no Brasil e no mundo. * Maurilio Tadeu de Campos. Mestre em Educação, escritor, presidente da Contemporânea - Projetos Culturais e membro das Academias Vicentina e Santista de Letras