(FreePik) Nas últimas semanas, o termo ‘surto’ voltou a ganhar espaço nos noticiários após uma declaração do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ele afirmou ter danificado a tornozeleira eletrônica após um suposto episódio de paranoia causado por medicamentos comuns, como remédios para soluço e vômito. A repercussão do caso me levou a uma reflexão que considero urgente: o quanto compreendemos — e o quanto banalizamos — os termos da saúde mental no debate público? Na Psiquiatria, o que chamamos de ‘surto’ é um episódio psicótico: um quadro agudo e importante, em que a pessoa pode perder o contato com a realidade. Pode haver delírios, alucinações, pensamento desorganizado e comportamento incompatível com o contexto. No uso cotidiano, porém, a palavra virou sinônimo de qualquer explosão emocional – e isso distorce sua gravidade clínica. É verdade que certos medicamentos usados para sintomas físicos, como náusea ou tontura, podem afetar o sistema nervoso central. Em pessoas mais vulneráveis ou quando usados em combinação com outras substâncias, esses remédios podem causar confusão mental, desorientação ou agitação. No entanto, esses efeitos adversos são exceções e exigem avaliação médica criteriosa para serem corretamente identificados. A automedicação é um risco ainda maior. Muitas emergências psiquiátricas começam com um ‘remedinho’ tomado sem orientação. Por isso, reforço: nenhum medicamento é inofensivo. E nenhuma mudança de comportamento deve ser ignorada ou diagnosticada de forma leviana. Além disso, precisamos debater com responsabilidade o uso público de diagnósticos. Chamar qualquer atitude de ‘surto’, qualquer oscilação de ‘bipolaridade’ ou qualquer tristeza de ‘depressão’ enfraquece o entendimento social sobre saúde mental. Figuras públicas, em especial, têm papel crucial ao tratar do tema: suas falas moldam percepções e influenciam decisões. A linguagem importa. E quando falamos de saúde mental, ela pode ser ponte para o cuidado – ou barreira para quem mais precisa dele. *Thyago Henrique. Médico pós-graduado em Psiquiatria pelo Hospital Israelita Albert Einstein