Não tenho afinidades com gato. Ferreira Gullar, sempre às voltas com o bichano, que não arredava pé, acreditava que o felino tinha um motor afetivo para mostrar gratidão. O poeta e o gato estão em um mesmo círculo, fenomenológico, interdependentes e especulares. “Gatinho” é o único nome para fazer jus ao companheiro de tantas horas, que um dia se foi. Traumatizado, o poeta não quis mais saber de outro gato, afinal, amigo não se substitui. Com os anos, a dor se apagando, aceita a gata siamesa, presente de Adriana Calcanhotto. Geração de pet shop, só come ração. Gullar confessa: Gatinha confia em mim, sabe que gosto dela e que pode contar comigo para o que der e vier. Essa confiança de um bicho que não fala a minha língua, que não sabe quem sou eu, mas só o que sou dentro desta casa, me alegra. Eu era assim com os cães, desde menina, latidos atravessando o sobrado. O quintal era o espaço para a traquinagem das crianças com a tia-avó. Mãe, imprescindível, mas que ficasse pedalando a máquina de costura, inventando outras modas. Ando sensível ‘pra chuchu’! Choro à toa, diante da tevê ou no cinema, quando o filme me arrasta para o interior de mim mesma. Assisto pela enésima vez, “O despertar de uma paixão’. Não consigo conter os soluços nem as lágrimas e não me importo de deixar ‘as águas rolarem’. Gullar ainda está comigo. As estrelas um dia se apagam. Muitas se apagaram desde que nasci. O tio não sobreviveu a tempo de me batizar. A tia-avó, segunda mãe, subiu aos céus nas asas de um canarinho. Meu pai se foi com os peixes e as flores da lágrima-de-cristo sob a luz da lua. Mamãe, na solidão de uma UTI. De repente, Portinari chega à memória visual com seus balões subindo ao céu, sonho dos despossuídos. É preciso apagar balões, mas reacender sonhos e estrelas. Olavo Bilac advertiria: “ora direis ouvir estrelas”... E até conversava com elas. Eu também, quando no pisca-pisca intenso parecem pirilampos! Lembro do amigo, que metaforizou o sol de verão em quindim, num haicai. Ao ver o sol, lembramos o doce. Comendo quindim volta à memória o astro rei. O homem busca suas referências feito o girassol à procura da luz. Não quero mais ouvir histórias de estrelas que se apagam. Há tanta escuridão no mundo, especialmente o negrume interior dos que realmente sofrem ou o choramingar dos eternos descontentes. Os percalços cotidianos são uma lição do que é verdade, essência da poesia e caminho da vida. O amor não brota feito labareda, incendiando os sentidos e a razão. Sem o escarcéu dos gatos na primavera, apaziguados em outras estações, talvez o amor germine no ritual dos pássaros, que se exibem em múltiplas colorações ou com a discrição das borboletas. Quantas viagens e travessias fez Bashô para contemplar a lua de outono? Quantos meses esperamos para nascer um filho? Vejo estrelas a qualquer hora da noite, pois olho para o céu com o firme propósito de vê-las. Entre elas, Gullar, és a mais brilhante. Ergo o braço até a estante, só para pegar o livro, ler o poema... Contrariar teu verso e acender estrelas! *Regina Alonso. Escritora, membro das academias:Santista de Letras; Vicentina de Letras, Artes e Ofícios e Letras, Artes e Ofícios de Praia Grande