(FreePik) A vida é como uma viagem! Durante muitos anos, “viajei” apenas pela leitura, conhecendo histórias, lugares e aventuras. Até a idade adulta, pouco viajei de fato, normalmente de ônibus, uma única vez, de trem. O mais distante que fui? Ao Rio de Janeiro, por obrigação familiar. Era o que havia para um jovem de família humilde, em que a mãe tinha cinco filhos para criar, e o pai, dois empregos, trabalhando sete dias por semana para prover o necessário. Foi aos 25 anos que surgiu a maior das aventuras: uma bolsa para estudar na França! Eu, que nunca havia viajado de avião, embarquei num DC-10 da saudosa Varig. Lá, viajei de TGV e de trens de grandes linhas, em velocidades superiores a 150 km/h, contrastando com o antigo, lento, mas inesquecível que um dia me levou a Itanhaém. Morei em Marselha. Durante o curso, custeado pela Fundação Rotária, tive a oportunidade de conhecer Aix-en-Provence, Briançon, Laragne, Epernay e Paris. Também conheci Monte Carlo e Lourdes. Findo o período de estudos, fui visitar a terra de meus avós, em Portugal: aldeias de Febres e Vérigo. Também conheci Figueira da Foz, Fátima, Faro, Coimbra, a Serra da Estrela e Lisboa. No entanto, a vontade de retornar ao Brasil era maior, e mesmo tendo sido convidado para estagiar num escritório de engenharia em Paris, voltei, em 1986. Confesso que, ao retornar, minha maneira de ser e pensar, afora alguns princípios éticos e morais basilares, mudara substancialmente. Conhecer outras culturas e as próprias origens deu novo sentido às “viagens” que a literatura me proporcionara, e à própria vida. Voltei a trabalhar, e minhas “viagens” se resumiram à Cosipa, em Cubatão. Comecei a namorar, e as viagens passaram a ser a São Paulo e Campinas, esporádicas, por conta dos irmãos de minha namorada. Só voltei a viajar de avião em nossa lua de mel, na época do Plano Collor. Foi uma odisseia, não a viagem, que foi maravilhosa, mas viabilizá-la. Ambos trabalhávamos e o dinheiro foi “contadinho”. Depois, passamos a viajar todo o ano pelo Brasil, até o nascimento de nosso filho. Na primeira viagem que fizemos com ele, quando tinha cerca de um ano e meio, ele adoeceu. Por conta disso, passamos a fazer deslocamentos curtos, de carro, geralmente a hotéis-fazenda no Interior do Estado. Aprendemos uma lição: viajar longas distâncias de avião com crianças pequenas, só em caso de necessidade, nunca por lazer, pois além do risco à saúde, há o incômodo que o choro e desconforto provocam nos demais passageiros. Só voltamos a viajar de avião quando ele tinha 10 anos, mas sempre em período de férias, dele e minhas, pois também atuava como professor universitário. Muito trabalho e economia hoje nos permitem viajar com certa regularidade, a trabalho ou por lazer. Os hiatos decorreram de um câncer e duas metástases, que quase me levaram a outro tipo de “viagem”. Enfim, a vida também tem escalas e contratempos. Gostamos particularmente da Europa, por conta de nossa ascendência e gosto por história. Por conta do risco de manipulação criminosa de malas despachadas, só usamos bagagem de mão e mochilas. Assim, levamos e trazemos pouca bagagem, mas muitas imagens, memórias e aprendizados, pois entendemos viajar como uma forma de ampliar horizontes físicos e, sobretudo, mentais! Quem viaja física ou mentalmente terá muito o que escrever no diário de bordo da vida, e sempre trará mais de volta do que excesso de bagagem e motivos para vangloriar-se perante amigos. *Adilson Luiz Gonçalves. Escritor, engenheiro, pesquisador universitário e membro da Academia Santista de Letras