O brasileiro mudou de desejo. Antes queria o celular do último modelo, a câmera mais potente, a tela mais brilhante. Hoje, quer a caneta. Não a que escreve, planeja ou educa. A outra. A que promete emagrecer sem suor, sem escada, sem parque, sem disciplina. Uma pequena agulha que virou símbolo de um novo tempo. Ou de um velho vício nacional. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! É difícil encontrar alguém que não conheça um usuário dessas canetas milagrosas. Está no escritório, no almoço de família, na academia que agora serve mais como cenário do que como prática. A conversa mudou. Já não se fala de aplicativos, mas de dosagem. Já não se debate tecnologia, mas efeitos colaterais. O futuro, ao que parece, não está mais na ponta dos dedos, mas escondido sob a pele da barriga. O País que sempre gostou de resolver tudo na base da canetada encontrou sua versão farmacêutica do jeitinho brasileiro. Para que exercício, se existe atalho. Para que mudança de hábito, se há uma promessa pronta em forma de medicamento. Não é preciso estudar o corpo, entender metabolismo, rever alimentação ou encarar o desconforto do esforço. Basta aplicar e esperar. Como se o excesso de peso fosse apenas um erro de cálculo e não o resultado de um estilo de vida inteiro. A ironia é cruel. Nunca se gastou tanto com medicamentos para emagrecer e nunca se debateu tão pouco saúde de verdade. O corpo magro virou objetivo final, não o bem-estar. A balança venceu o exame clínico. A estética atropelou a reflexão. E o discurso é sempre o mesmo. É pela saúde. Mas o espelho costuma ser mais consultado do que o médico. Enquanto isso, bilhões circulam em torno dessa nova obsessão nacional. Não se trata de demonizar a ciência nem ignorar avanços importantes no tratamento da obesidade e do diabetes. O problema é o uso simbólico que o brasileiro faz de tudo que promete solução rápida. O Brasil trocou o fetiche tecnológico pelo fetiche da silhueta. Sai o celular novo, entra o corpo novo. Ambos vendidos com a mesma promessa de felicidade instantânea. Seguimos assim, um país que emagrece na aparência e engorda nas contradições. Sempre à espera da próxima canetada salvadora. Sempre acreditando que o problema nunca é o caminho, apenas a falta de um truque melhor. *Gregório José. Jornalista, radialista e filósofo