(FreePik/Gerada por IA) Celebrar 50 anos de amizade é coisa que não cabe em taça de espumante nem em discurso. Cabe melhor numa mesa de restaurante árabe, dessas em que os pratos vão chegando sem pedir licença e a conversa se espalha como pão sírio rasgado à mão. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Saímos os dois casais assim, meio solenes e meio rindo da própria solenidade. Bodas de ouro não são de casados, mas de uma amizade, o que dá trabalho parecido: exige memória seletiva, como uma arte de lembrar de certas histórias que nos faz rir. Entre um falafel e uma coalhada, começamos a falar do Egito. Nossos amigos tinham voltado há pouco, ainda com areia imaginária nos sapatos. Falaram dos povos núbios, das pirâmides menores, mais elegantes, como suas versões compactas que não precisam gritar para serem eternas. Tínhamos como testemunha um quadro na parede de um beduíno montado num camelo no deserto, fazendo lembrar a crônica Lançamento do Torre de Babel, de Luis Fernando Veríssimo. Um lançamento de um edifício com mil andares, uma espécie de condomínio universal. Quanto mais monumental é o projeto, mais banais, e absurdas, se tornam suas consequências práticas. A torre, pensada para unir, passava a produzir confusão de línguas e códigos; dificuldades de convivência; e isolamento entre os próprios moradores. O riso nasceu da naturalidade com que o absurdo é apresentado, como se fosse perfeitamente razoável morar num prédio de mil andares, um verdadeiro delírio coletivo, que dialoga com o presente: megacidades, condomínios fechados, projetos “inteligentes”. Retrato de uma sociedade que fala muito, constrói alto, mas escuta pouco. Para comprar o apartamento durante a obra, o pagamento seria de dezessete camelos núbios, dez cabritos, cinco parcelas de quinhentos “dinheiros” e kibe cru mensais a perder de vista. Não foi preciso chamar o motorista por aplicativo. Voltamos a pé. *Marcio Aurelio Soares. Médico