Nunca fui seduzido pelas Teses de Abril, de Vladimir Lenin, o bon vivant que defendia o uso da violência extrema para fazer valer suas ideias. Aliás, como sempre, pragmatismo e absoluta impaciência para teses utópicas me impedem de levar a sério a viabilidade de ditaduras do proletariado ou qualquer baboseira do gênero. Sempre quis conhecer o mundo, mas Cuba e Venezuela, países do atraso, nunca fizeram parte de meus planos. Só que a vida tem suas ironias e me fez pisar, ainda que brevemente, nesses dois países. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Para que a história tenha começo, meio e fim, vou contar como cheguei até lá. Há uma década, fui com meu irmão a Boa Vista, e resolvemos esticar até a Venezuela, utilizando táxi compartilhado. No retorno, estávamos nós dois e uma venezuelana, além do taxista. Ao pararmos na fronteira, notei que a passageira entregou R\$ 1,00 ao impoluto membro da guarda nacional bolivariana da Venezuela. Já em solo pindoramense, o taxista me esclareceu que era comum o contrabando de ouro transportado em pequenas quantidades entre os dois países, e que os passageiros de táxis pagavam aos guardas venezuelanos para não serem fiscalizados. Uma pequena amostra do modelo de “corrupção estrutural” daquele país. Corrupção estatal endêmica e governo perene são coisas incompatíveis. A ditadura venezuelana estava com os dias (ou anos) contados. Há alguns anos, aceitei o convite de amigos para fazer um cruzeiro de Miami a Havana, com a promessa de que, após, iríamos aos parques temáticos em Orlando, para mim, o real motivo da viagem. Ao desembarcarmos no porto da capital cubana, lembrei-me do cenário daqueles filmes pós-guerra nuclear, nos quais só há ruínas, ruas sujas e – para dar vazão à liberdade poética – pessoas se matando por alguns galões de gasolina. Deplorável constatar a completa degradação de Cuba, onde a miséria é o único legado universalmente socializado – 40% de seus aposentados recebem US\$ 6,00 ao mês. Cuba e Venezuela já foram países prósperos. Nas últimas décadas, apostaram em modelo econômico que jamais funcionou em qualquer lugar e optaram por ditaduras com sistemático massacre ou encarceramento de opositores. E se opor a tais regimes não tem a ver com supostas virtudes de direita ou de esquerda. O que está em jogo é a honestidade intelectual, que deve impedir alguém de se declarar combativo defensor da democracia e, simultaneamente, nutrir simpatia por ditaduras. *Arnaldo Luis Theodosio Pazetti. Coronel PM, advogado e escritor