(FreePik) Difícil a semana que não nos deparávamos com um lambe-lambe anunciando o próximo show da banda Blow Up. Cartazes enormes com escritas simples, colados em tapumes de obras, muros sem donos, permeando o visual urbano da cidade. “Blow Up – Clube dos Ingleses – neste sábado”. Fui a muitos shows; sempre lotados. Som contemporâneo. Diversão certa. Os caras passaram a fazer parte da vida dos jovens, depois pais, avós.... quanta gente não começou a namorar ouvindo Rainbow, tema de novela Anjo Mal (1976). Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Mas o que muitos não sabem é que a banda começou em 1965, sob o nome de The Blak Cat, formado por amigos da cidade que tocavam versões fiéis de músicas estrangeiras que chegavam informalmente pelo porto de Santos. Um ano depois, profissionalizando-se com a chegada do empresário Walter Teixeira, trocaram o nome da banda para Blow Up – uma explosão literal. O nome foi inspirado no filme Blow Up, Depois Daquele Beijo (1965), do consagrado cineasta italiano Michelangelo Antonioni, em seu primeiro filme em inglês, inspirado no conto As Babas do Diabo (1959), do grande escritor argentino, Júlio Cortázar. No conto de Cortázar, um fotógrafo registra por acaso uma cena ambígua num parque e só ao revelar a imagem percebe algo inquietante: uma violência latente que o olhar imediato não captou. A fotografia deixa de ser registro fiel e passa a trair o real, transformando-o em ameaça. Antonioni preserva essa desconfiança do olhar, mas a desloca. Sai a Paris literária e entra a Londres pop; sai a reflexão verbal e entra o silêncio das imagens. Nas ampliações, comuns aos dois, ver mais não esclarece — dissolve. A diferença é que, no conto, a dúvida aparece na forma de contar a história: quem narra já não sabe direito o que viu. No filme, a dúvida aparece no olhar: quanto mais se olha, menos se entende o que aconteceu. Na arte, a obra não se esgota porque o olhar nunca é o mesmo. Quem lê, vê ou escuta chega carregando tempo, memória, corpo, expectativa. A arte não entrega um sentido fechado; ela ativa um campo de possibilidades. Cada leitura não substitui a anterior, se soma a ele. Por isso, a arte não funciona como bula. Funciona como espelho irregular: devolve algo, mas nunca inteiro, nunca igual. Cada aproximação produz um desvio. O Blow Up, em Santos, não teorizou o olhar nem a imagem, mas traduziu a mesma inquietação em som. Pegou referências estrangeiras, ampliou-as no volume e no palco, e devolveu tudo como experiência. Não era cópia pura: era deslocamento. No fundo, os três Blow Ups — conto, filme e banda — fizeram a mesma coisa: olham para algo conhecido, ampliam demais e aceitam a consequência. O sentido escapa. O ruído fica. E isso, às vezes, é tudo o que a arte pode — e deve — fazer. *Marcio Aurelio Soares. Médico