(AdobeStock) Na Baixada Santista, a engenharia vive um momento de mudança de rota: não faz mais sentido chamar de obra bem feita um projeto que desconsidera o clima, o lugar onde está inserido e as pessoas que vão conviver com ele. Essa é uma região que gera muita riqueza, mas também muito vulnerável a riscos climáticos, e isso obriga engenheiros e arquitetos a repensarem a forma como aprendem, projetam e decidem. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Durante décadas, o raciocínio dominante foi simples: projetar para funcionar agora, ao menor custo imediato possível. O meio ambiente entrava no fim da lista, como exigência a cumprir ou problema a resolver depois. Hoje se sabe que, em um lugar como Santos, isso significa empurrar para o futuro enchentes, ressacas, paralisações no porto, perdas econômicas e impactos diretos na qualidade de vida. A nova lógica inverte essa ordem. Clima, gestão de recursos, circularidade de materiais e vulnerabilidade costeira deixam de ser tratados como itens acessórios e viram ponto de partida do projeto, desde o conceito. Em termos práticos, um prédio pensado sem considerar aumento do nível do mar, chuvas extremas ou eficiência energética não está apenas incompleto: ele nasce como um problema futuro em forma de obra. Isso muda o próprio significado de responsabilidade técnica. Se antes ela parecia caber, principalmente, na segurança de uma viga ou de uma laje, agora precisa ser medida também pelas emissões de carbono do empreendimento, pela resiliência a eventos extremos e pelo impacto na cidade por décadas. Projetar sem essa visão hoje é projetar obsolescência, risco financeiro e risco de vida. É nesse cenário que a Associação de Engenheiros e Arquitetos de Santos se coloca como candidata a catalisar essa mudança de mentalidade. A proposta é usar o espaço da entidade para aproximar profissionais, academia, empresas e poder público, criando uma espécie de “laboratório vivo” onde essa nova forma de pensar se transforma em cursos, debates, soluções de campo e exemplos concretos. Mais do que produzir documentos, a intenção é ajudar a profissão a assumir um papel ativo na transição climática, na economia azul e na construção de infraestrutura resiliente.? No fim, o recado é direto, mas otimista: não existe mais engenharia de excelência que não seja ambientalmente responsável. A pergunta que fica para cada engenheiro e arquiteto é se vai seguir preso ao manual antigo ou se vai participar da reescrita das regras da própria profissão, usando conhecimento técnico para salvar vidas, proteger o território e garantir o futuro de uma região que não pode dar errado. *Claudio Bastos e Mauricio Gaspar. Diretoria de Meio Ambiente da Associação de Engenheiros e Arquitetos de Santos