(Freepik) A cidade amanhece devagar. Um ciclista cruza a avenida quase vazia; o pedal organiza o movimento e, por alguns metros, a cidade retorna à escala do corpo humano. Quem pedala conhece o vento no rosto, o esforço das subidas e a autonomia tranquila de chegar à cidade com o próprio corpo, mesmo diante do ruído insistente dos motores. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! É nesse cenário que ressurge, nas redes digitais, a frase provocativa: “A bicicleta é a morte lenta do planeta”. Ela ecoa discursos que confundem desenvolvimento com consumo e sugerem que quem pedala gasta menos, adoece menos e, portanto, contribuiria menos para a economia. A leitura é estreita: transforma congestionamento, sedentarismo e custos públicos crescentes em sinais ilusórios de vitalidade, como se excesso fosse progresso e desperdício, modernidade. Os dados apontam outra direção. Relatórios da European Cyclists’ Federation (ECF, 2023) e estudos de políticas urbanas indicam que cada quilômetro que deixa de ser percorrido por automóvel evita, em média, cerca de 150 g de CO2. Em deslocamentos de 3 a 5 km, uma única viagem substituída pela bicicleta reduz entre 0,45 e 0,75 kg de CO2. Em cidades que acumulam milhões de viagens anuais por bicicleta, esses gestos cotidianos se convertem em dezenas de milhares de toneladas evitadas, com efeitos mensuráveis sobre a qualidade do ar e a saúde pública, evidenciados também por análises do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP, na sigla em inglês). Nada disso elimina tensões. A transição para cidades cicláveis envolve disputas pelo espaço, desafios de segurança viária e desigualdades territoriais, além de limites do modal para certas distâncias e perfis. Reconhecer fricções não enfraquece o argumento; torna-o mais honesto. A bicicleta não é solução única, mas parte essencial de um ecossistema de mobilidade sustentável e inclusivo. Na Baixada Santista, essa transformação já se inscreve no território. Em Santos, o Bike Santos acumula milhões de deslocamentos desde 2012 e contribui para evitar emissões associadas às viagens motorizadas; considerando médias de percurso e fator de emissão por quilômetro, o sistema representa milhares de toneladas de CO2 evitadas ao longo dos anos. Cada trajeto que troca o motor pelo pedal ajusta, gradualmente, a rota coletiva diante do aquecimento global. O futuro pede continuidade: conexões seguras entre bairros, integração com o VLT, bicicletários em terminais e estações, sinalização segura e pontos de manutenção leve, pontos de apoio com cabine de banho e espaço para troca de roupa, além de estacionamentos protegidos. Não é ornamento urbano, mas política pública estruturante, onde mobilidade, saúde, economia local e direito à cidade convergem e se fortalecem. Quando a bicicleta conquista espaço, a cidade revê o que escolhe valorizar. *Alessandro Lopes. Arquiteto, pesquisador em Cidades Criativas e Inteligentes e consultor regional do Instituto Multiplicidades