( Divulgação) O mesmo ano que trouxe Guimarães Rosa, 1908, levou Machado de Assis. No entanto, suave energia uniu esses dois talentos da literatura que tiveram em comum a habilidade e o gosto para colocar no papel textos perfeitos, frutos da desenvoltura desses artífices das palavras. O elo iluminado que uniu essas mentes, enriqueceu a literatura nacional. Jamais aparecerá outra Capitu, outro Miguilim, ou Dom Casmurro, ou Diadorim, ou Quincas Borba ou Manuelzão; eles só poderiam ter saído da inspiração desses literatos. A partir da escrita, ganharam vida, constituindo-se em exemplos perfeitos de brasileiros que ainda encontramos pelas casas, pelas ruas, pelas esquinas. Quando Guimarães Rosa recebeu o Prêmio Machado de Assis de literatura, lá estavam os dois, mais uma vez, unidos. Rosa e Machado também pertenceram à Academia Brasileira de Letras, consagrados como imortais. A atmosfera daquele sodalício possibilitou outro belo encontro, numa noite chuvosa de novembro de 1967, na qual o emocionado João Guimarães Rosa tomou posse. A sensibilidade e o anseio do novo acadêmico puderam unir-se aos de Machado de Assis, fluidicamente, mesmo em planos diversos. Admirando-se mutuamente, estavam em perfeita simbiose. Guimarães Rosa disse, certa vez: “As pessoas não morrem, ficam encantadas”. Machado e Rosa, encantados como estão, devem estar felizes com a admiração e o reconhecimento de seus talentos, algo ainda raro no terreno da literatura mais séria, mais apurada. Num país em que a memória anda fraca e o enriquecimento material é comportamento habitual, lembrar Guimarães e Machado de Assis carece ser algo deveras saudável, pois esses escritores, reconhecidos mundialmente, possuem a grandeza dos homens bons, de talentos notáveis. Nesse meu vislumbramento do quase inusitado encontro no qual percebo Machado e Rosa reunidos, observo, de repente, Martins Fontes chegando, acenando e, abrindo um grande sorriso, logo anunciando: “Eu também tenho sido muito lembrado, principalmente no mês de junho, na minha querida e inigualável Santos. As comemorações fazem-me despertar e acompanhar com alegria as homenagens. Sou lembrado ainda em outros lugares, até fora do Brasil. E não quero me gabar, mas os tributos manifestados a mim são merecidos”. Machado certamente arremataria, citando o próprio Fontes: “Como é bom ser bom”. Os três soltariam uma gargalhada de felicidade para, em seguida, lado a lado, dirigirem-se a um aprazível encontro no qual os grandes poetas e escritores de todos os tempos estariam presentes, relembrando seus momentos de sublimação, dispensando as diferenças de épocas e de estilos, mas empenhados em preservar a mágica energia por eles produzida, captada por vorazes leitores, seus cúmplices e admiradores. *Mestre em Educação, escritor, pesquisador, presidente da Contemporânea-Projetos Culturais e membro da Academia Santista de Letras