(Imagem ilustrativa/Pexels) Mais uma etapa do meu banho de civilização. Dessa vez, direto da Turquia — terra de baklava (doce deliciosamente turco), mesquitas magníficas e, sim, um certo apego à figura do presidente Erdogan. Por lá, o culto à personalidade existe, mesmo com um estilo de liderança, digamos, bastante firme. A julgar pelas críticas frequentes (e geralmente bem fundamentadas) da imprensa internacional, eu esperava encontrar uma versão turca do nosso Brasil: trânsito caótico, obras intermináveis, populismo barulhento e buracos com CEP próprio. Pois bem. Caí do cavalo. A começar pelas estradas: lisas como pista de boliche, sem crateras, nem aquele tradicional risco de atropelar um ciclista fazendo zigue-zague no acostamento. Tudo cercado, limpo, organizado. Mas a surpresa maior veio ao passear por Istambul, uma metrópole de 16 milhões de habitantes (sim, você leu certo). Caminhei com minha esposa à noite, com celular na mão e cartão no bolso — e voltei com tudo isso intacto! Nenhum trombadinha. Só gente indo e vindo, vendedores de chá e o cheiro constante de comida boa. A polícia é visível e aparentemente não está só para tirar selfie em protesto: ela funciona. E onde o Estado funciona, o crime, ora, se recolhe. A sensação foi uma mistura de encantamento com constrangimento. Porque a Turquia, que no início dos anos 2000 tinha uma renda per capita mais baixa que a do Brasil, hoje exibe um número cerca de 60% maior. E mais: também tem um governo populista — ou seja, não é exatamente um modelo escandinavo. Mesmo assim, conseguiu crescer, modernizar, atrair turismo, manter a segurança pública e projetar relevância regional. Como isso aconteceu? Não há resposta simples. Mas uma hipótese me parece cristalina: os eleitores turcos, mesmo quando optam por populistas, ainda conseguem escolher melhor que os nossos. Talvez seja sorte. Talvez seja instinto de sobrevivência. Ou talvez, nós sejamos ruins mesmo nessa arte de eleger gente que nem consegue fazer o básico funcionar. Voltei da Turquia com um sorriso no rosto e um nó na garganta. É esperançoso ver que um país pode melhorar mesmo sob líderes populistas. Mas é também deprimente perceber que o Brasil, com um potencial infinitamente maior, segue emperrado por escolhas equivocadas — e por uma teimosa vocação em premiar o populismo que grita, mas não entrega. Ainda bem que trouxe baklava na mala. Porque o gosto amargo da comparação ainda está na boca. *William Horstmann. Engenheiro, ex-executivo e consultor