O invisível é devastador. O microlixo, que são pequenos resíduos como microplástico, bitucas, lacre e isopor, está entre os maiores vilões da vida marinha e da saúde humana. Em Santos, o “Surf Limpeza” apoiado pela Associação Comunidade de Mãos Dadas, transforma essa realidade com arte, esporte e educação ambiental. A iniciativa convida voluntários a recolher resíduos nas praias em troca de aulas de surf ou stand up paddle. Mais que uma troca simbólica, é um convite à consciência. O lixo vira escultura, encapsulado em resina e moldado em formas que recriam a vida marinha e a Cidade de Santos. É arte que denuncia e inspira. O projeto já recebeu recursos do Fundo Municipal de Preservação e Recuperação do Meio Ambiente de Santos, o que reforça seu reconhecimento e impacto. Porém, aguarda há mais de 19 meses o desdobramento da continuidade que foi já aprovada pela comissão avaliadora. Secretaria Municipal e Prefeitura já foram alertadas quanto ao problema, mas ainda sem solução! A consequência da demora? Centenas de quilos de microlixo deixam de ser recolhidos. Em média, o projeto é capaz de recolher cerca de 10 kgs de resíduos por dia, dependendo da ação e quantidade de voluntários. O projeto está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, especialmente os de saúde, meio ambiente e educação. No dia 20 de setembro, o Surf Limpeza participará do maior Clean Up Day já realizado na Baixada Santista. Mais de 100 instituições estarão mobilizadas para limpar praias, rios e mangues, com apoio de Prefeituras, Universidades, empresas e sociedade civil organizada. Há urgência. Estudos da Unifesp revelam que o estuário de Santos é um dos mais contaminados por microplásticos do mundo. Em mexilhões coletados na região, foram encontradas até 300 partículas por grama de tecido. Esses resíduos vêm do esgoto, da lavagem de roupas e descarte inadequado e acabam por entrar na cadeia alimentar. O impacto vai além do meio ambiente. Microplásticos foram detectados em placentas, pulmões, sangue e até coração humano. Estão associados a inflamações, disfunções hormonais e risco cardiovascular. A poluição plástica é também uma questão de saúde pública. Projetos como o Surf Limpeza mostram que é possível agir. Ao unir esporte, arte e educação, criam pontes entre o indivíduo e o planeta, pois a consciência faz a mudança. Mas é preciso mais. É preciso que cada cidadão entenda que seu consumo tem consequência e que sua participação tem poder. O Clean Up Day é um chamado para que deixemos de ser espectadores e nos tornemos protagonistas. Porque o mar não precisa apenas de limpeza, mas de consciência. E que um dia se transforme em todos os dias. *Eduardo Vianna Junior. Conselheiro da Associação Comunidade de Mãos Dadas de Santos e membro da coordenação do MACFS - Movimento de Apoio à Cidadania Fiscal e Solidária.