A inclusão social é, sem dúvida, um dos maiores marcos da evolução humana. Foi assim com a entrada das mulheres no mercado de trabalho e o direito ao voto — conquistas que não caíram do céu. Custaram greves, marchas, muita coragem e ainda mais paciência para enfrentar séculos de resistência. Custou, mas deu certo! Hoje parece impensável imaginá-las fora desse mundo. O mesmo vale para o amor entre pessoas do mesmo sexo. Sempre existiu — desde que o homo sapiens descobriu que gostava não só de caçar mamutes, mas também de companhia. O problema é que a aceitação oficial demorou milênios para se materializar. Ainda hoje, há governos presos à Idade da Pedra que insistem em criminalizar o mais óbvio dos direitos: o de amar. No Ocidente, pelo menos, esse preconceito já não tem mais tanta força. O racismo, por sua vez, é uma ferida crônica: cicatriza na lei, mas insiste em sangrar no cotidiano. Está ali, às vezes explícito, às vezes enrustido nos detalhes — um olhar torto, um “não era bem isso que eu quis dizer”, ou aquele silêncio que fala mais do que mil palavras. Mas não dá para negar: vitórias foram acumuladas. Pessoas com deficiência conquistaram espaço no mercado de trabalho, rampas deixaram de ser luxo e viraram obrigação em muitos espaços públicos, e a igualdade saiu do discurso para se transformar em prática, ainda que incompleta. Só que tem um detalhe incômodo: à medida que avançamos, surgem os espertalhões de plantão. Percebendo que os preconceitos tradicionais já não rendem dividendos, inventam novos “dramas sociais”. E com eles, vêm as propostas mais estapafúrdias de “inclusão” — geralmente acompanhadas de privilégios mal disfarçados sob o rótulo de cotas. Se esse é o caminho, então prepare-se: logo teremos cotas para pianistas com mãos pequenas nas peças de Chopin, cotas para baixinhos jogarem na NBA e até cavalos geneticamente modificados para carregar jóqueis grandalhões. Porque, claro, o importante não é enfrentar problemas reais, mas criar bandeiras novas — e de preferência coloridas o suficiente para render bons palanques. Cotas, cotas, cotas. Quando bem aplicadas, são ferramentas de justiça, corrigem desigualdades históricas e abrem portas que por muito tempo estiveram trancadas. Mas quando inventadas sem critério, viram apenas escada para ideólogos e populistas que precisam delas como oxigênio para continuar respirando sob os holofotes. *William Horstmann. Engenheiro, ex-executivo e consultor