(FreePik) Em fevereiro de 2022, Paul Polman, ex-CEO da Unilever, em entrevista ao Internacional Finance Corporation (IFC), declarou que “não temos uma crise de mudança climática ou desigualdade (social)… a crise real que temos é, na verdade, uma crise de ganância”. Mais recentemente, em 2024, no evento B20 Summit Brasil, Polman elevou ainda mais um tom na polêmica ao revelar que há dinheiro e tecnologia para resolver a maioria dos desafios globais, inclusive a emergência climática, mas, além da ganância, o sistema é movido por interesses que não são sustentáveis. Em outro segmento da história menos recente, lá no século 6, Gregório Magno assumiu o pontificado da Igreja Católica e, preocupado com a decadência de hábitos e inadequados estilos de vida na experiência humana, propôs que, no ensino da catequese, fossem incluídas reflexões mais abrangentes sobre o tema dos pecados. Desta escolha papal foram agregados outros vários pecados, com o propósito de balizar o comportamento na sociedade. A palavra pecado tem origem no latim peccare, que significa falta, erro ou tropeço. Embora em sua versão inicial os escritos herdados refiram-se a uma extensa lista de pecados, na versão seguinte e por analogia, “os tropeços” foram concentrados em apenas sete pecados capitais: vaidade, avareza, inveja, ira, preguiça, luxúria e gula. Mesmo no “enxugamento”, a teologia moral deu ainda destaque aos vícios menores que passaram a ser chamados de “filhas” dos pecados capitais. A ganância, citada nas denúncias corajosas feita por Paul Polman, está relacionada com a avareza: a ganância, portanto, é “filha” da avareza. Com base na filosofia de Tomás de Aquino e autores clássicos são listados outros vícios associados à avareza: a astúcia, a fraude, o perjúrio, considerado o falso testemunho para ganho material, a dureza de coração, tida como insensibilidade à miséria alheia, entre outras, todas “filhas” da avareza. Recentemente, o jornal Valor Econômico deu destaque a um “teste duro” pelo qual passou a presidência brasileira da COP30, evento que ocorrerá em novembro em Belém, no Pará. Delegados de mais de 190 países, reunidos em Bonn, em um encontro preparatório, cobraram “sobre a falta de acomodações em Belém e os preços abusivos da rede hoteleira e de donos de imóveis da cidade”: diárias duas vezes mais caras que foram pagas em Dubai e Baku. É a ganância de novo! A discussão proposta aqui é a de sempre: o fator humano como fonte de desequilíbrios em escala social e ambiental. Esforços no enfrentamento da crise ambiental precisam se concentrar em ações efetivas no plano individual e coletivo: ou viramos esta chave ou os conceitos de pecados relacionados com o sofrimento vão se associar, ainda mais, e cada vez mais, à dor! * Alfredo Cordella é professor da Unisanta.