(Imagem ilustrativa/Pexels) Comunicar é muito mais do que trocar palavras: é junção de pensamentos, emoções e culturas. Vai dos primeiros sons emitidos às complexas estruturas linguísticas, moldando sociedades. Nesse universo de significados a utilizamos para expressar o que nos habita. A língua tem o poder de nos conduzir com suas melodias, ritmos e alma. Para mim, destacam-se três línguas, além de outras formas de comunicação que revelam uma faceta única da experiência humana. Falam diretamente ao coração, feitas de sentimento, onde o verbo é emoção e o vocabulário, silêncio, olhar e gesto. Talvez vocês não concordem comigo: no francês a fonética é amor. Não se fala, sussurra-se. Som da chanson, do convite velado; do toque antes do toque. Cada “r” arrastado é um arrepio, amor nas nuances, no copo de vinho partilhado num café esfumaçado de Saint-Germain-des-Prés. Pura sedução que mora na pausa, no je t'aime dito com a mesma naturalidade de um “bom dia”. Polidez que esconde o desejo e, quem sabe, por isso seja tão elegante, tão irresistível. Se o francês é o sussurro da sedução, o espanhol surge como seu contraponto ardente. Aqui, a elegância cede lugar ao fogo; caliente, urgente, vibrante. Exige um palco, porque gosta de se mostrar. É dança flamenca, o grito, o te quiero lançado com a força de um soco. Se o francês é o flirt, o espanhol é o affair: indignação e êxtase, gargalhada alta e choro desbragado. Não há meias palavras, apenas intensidade crua, como uma tempestade de verão no Mediterrâneo. Após o amor francês e a paixão espanhola, encontro refúgio na minha língua. Ah, o meu português. Sim, aquele que veio da Europa, queiram vocês ou não. Sem ele, outro idioma teria assumido esse papel. É o fado que chora em silêncio. É o samba que sorri em festa. Não tem o charme do francês, nem o calor do espanhol. Tem a musicalidade na fala e a saudade, palavra intraduzível que carrego como um mapa secreto. Canto triste e prece murmurada, intimidade desarmada, colo de mãe, verso que dói. Nela penso, sonho, sou eu mesmo, sem adereços ou traduções. Não posso deixar de lembrar da Língua de Sinais Brasileira (Libras) transcendente à comunicação cotidiana, revelando-se também como arte poética. Com sua estrutura visual e espacial, a Libras permite a criação de metáforas, alegorias e imagens que evocam emoções e ideias profundas... visão reveladora da alma. Entristece-me notar o que fazem com o nosso idioma: um verdadeiro “linguicídio”, se é que posso usar um neologismo e parecer cúmplice dos que assassinam a nossa Língua Portuguesa. Ao repousar no verbo que me embala, recordo as palavras de Vergílio Ferreira: “A língua é a pátria”. Nessa pátria feita de sons e sentidos encontro não apenas abrigo, mas identidade. Porque mais do que códigos de comunicação, essas vozes que me habitam são territórios afetivos; mapas daquilo que sou, fui e ainda posso ser. Se a língua é pátria, então cada palavra é também destino. Jardel Pacheco. Professor, escritor, Diretor de Relações Públicas da Contemporânea – Projetos Culturais e membro da Academia Vicentina de Letras, Artes e Ofícios.