(FreePik) Em tempos de correria, quando tudo parece ir rápido demais, com sentimentos e amores não correspondidos, medos, mentiras e falsas promessas, os cães permanecem firmes e fiéis. Talvez seja por isso que, para muitos, eles não são apenas animais de estimação. Tratam-se de amigos, companheiros, anjos. Por que não dizer deuses? Pode parecer um grande exagero para alguns, mas qual a criatura neste mundo que amo sem esperar nada em troca? Qual ser se entrega inteiro a alguém sem exigir passado a limpo, futuro garantido ou aparência impecável? Qual alma se contenta com um espaço no canto da cama e um carinho? Os nossos cães fazem isso todos os dias, sem contrato, sem cobrança. Vejam os cães das pessoas em situação de rua como são fieis aos seus donos. Não importa se o tutor é rico ou pobre, jovem ou velho. Não importa o tamanho da residência ou da ausência. Quando voltamos para casa, eles estão ali, alegres e saltitantes. Celebram nossa existência como se a gente fosse o centro do universo. Com certeza, somos isso para eles. Se não bastasse tudo isso, em hospitais, eles confortam sofrimento e ajudam nos tratamentos. Em casas, os olhos atentos lembram que o amor não se mede em palavras, e sim em presença. Os cães carregam uma sabedoria silenciosa: ensinam que o que é o amor e lealdade, o que é o perdão, o que é estar por inteiro ao lado de alguém. Quando vão para o Oriente Eterno, levam um pedaço de nós. Embora muitas vezes parte da sociedade não entenda, não existe luto mais puro do que o que sentimos por um cão. Pois eles foram tudo em troca de quase nada. Talvez os antigos deuses, antes das mitologias e das religiões, andassem entre nós de quatro patas, como o rabo abanando e os olhos dizendo “estou aqui, mesmo quando ninguém mais estiver”. Se existe algo de sagrado neste mundo, talvez seja isso: o amor simples, lindo, fiel e eterno de um cão. *Eduardo Ribeiro Filetti. Médico-veterinário, professor universitário e membro das academias Santista de Letras e de Letras e Artes da Praia Grande