(Unsplash) O frio chegou... há muito não vinha indomado, surgiu austrífero. Não demorou muito para o sol de inverno comparecer manso, deixando os dias mais claros, mornos e felizes; momentos para caminhar à preamar ou à baixa-mar, a sentir o vento meio gelado que faz desejar o abraço acolhedor e, no mínimo, o calor discreto de um moletom para proteger do álgido. A direção do meu andejar leva-me à Ponta da Praia, quando posso observar o pôr-do-sol magnifico e esplendoroso, pois sei que, no dia seguinte, Ele, o sol, voltará, sempre radiante, acompanhando toda a minha existência, provando que algo maior, daquilo que imagino saber, existe. Miro o sol, fito o mar, e ali, feito de madeira velha, de cor branco e verde desbotado pela maresia, um barco de alma cansada está repousado na marola suave do mar. Chamou-me a atenção seu nome de batismo: Esperança. Ora, essa palavra não é apenas um substantivo, ela é aquilo que nos resta depois das falhas existenciais. Dá coragem ao medo e suavidade à dor. Faz-me pensar na esperança descrita por Drummond, naquela Receita de Ano-Novo, escrita com delicadeza e profundidade. A esperança é um “futuro vivido no presente”, sopro de felicidade que antecede a realização, é a fé que plantamos para colhermos a ledice. É a Eudaimonia tão desejada por nós; realização duradoura, bem supremo da vida, ação da razão e da virtude, ou seja, viver plenamente e, diria mais, com coragem, justiça e cabal sabedoria. Isto chama-se felicidade. A felicidade almejada, não é apenas estar alegre, é algo mais profundo. É viver de acordo com seus valores, desenvolvendo suas virtudes e encontrando sentido em suas ações. Ou seja, nos pequenos atos, nas experiências comuns, sem a dependência do luxo, do status e da perfeição paranoica e sim, viver presente, grato e leve; simples assim, a felicidade é despretensiosa, duradoura, acessível e serena. Deu para perceber que a esperança e a felicidade andam juntas, uma vez que, enquanto a esperança olha para o amanhã, a felicidade revela-se no hoje; a esperança brota no coração, a felicidade alimenta a força mesmo quando não vemos saída e, assim, pedem sensibilidade: uma para imaginar e a outra para sentir. Volto à Ponta da Praia da minha linda cidade e fico distraído de mim, propositalmente. Meus pés na areia, o andar quase esquecido, volto do navegar imprevisto. O inverno a demorar. Careço do aconchego indispensável... aguardo o cheiro da nova estação e atrevo-me a parafrasear Carlos Drummond de Andrade: “A partir de setembro (não de janeiro, como disse o poeta) as coisas mudam”. É o meu desejo, se as estações do ano recuperarem suas memórias. *Jardel Pacheco. Professor, escritor, ativista cultural e diretor de Relações Públicas da Contemporânea – Projetos Culturais