(FreePik) Nos anos de 1970, nas tardes de sábados, eu, então adolescente, costumava ficar no quartinho dos fundos da casa de meus pais “inventando moda”. Estas tardes tinham como pano de fundo um rádio que só tinha AM, pelo qual eu ouvia programas do Projeto Minerva, que abordava folclore, cultura e histórias do Brasil, incluindo a dos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB). “Você sabe de onde eu venho?” é a primeira frase da linda Canção do Expedicionário, composta por Spartaco Rossi. Para mim, ela tem a mesma força melódica e emotiva da Aquarela do Brasil, de Ary Barroso. Essa pergunta também deve ter sido feita pelos alemães, ao verem brasileiros lutando na Europa. Apesar do treinamento prévio, nossos pracinhas e mesmo seus oficiais não estavam suficientemente preparados para enfrentar aquele conflito. Tiveram que superar descrenças, anacronismos doutrinários, defasagem de armamentos, preconceitos, o clima e as saudades para se tornarem respeitados por aliados e inimigos. Sempre tive interesse pela história de conflitos, civilizações, ficção científica e biografias, e meu pai incentivava meu gosto pela leitura. Uma vez por ano, quando havia feira de livros numa livraria local, ele me dava dez cruzeiros. Eu, entre 11 e 14 anos, fazia a festa! Certa vez, comprei A Verdade sobre a FEB, um livro tão espesso que, se caísse no pé, talvez demandasse amputação. Sem me avisar, meu irmão do meio, que então prestava serviço militar, o havia “presenteado” ao seu comandante. Imaginem como eu devo ter ficado, mas sendo irmão caçula, bem mais novo, e o “fato consumado” me fizeram ter que engolir a raiva… mais ou menos. No entanto, folhear o livrão já havia permitido entender a grandeza de nossos pracinhas, que alguns insistem em desmerecer, associando-os a questões ideológicas, que poucos deles sequer tinham noção. O tema de um dos programas do Projeto Minerva, lembro bem, foi a FEB. Ele não abordou aspectos militares do conflito, mas como nossos pracinhas suportaram esse período, usando a música como elemento de distensão. Em meio a tantas baixas e sofrimentos, eles encontraram tempo para compor e cantar músicas como Sinhá Lurdinha, de Natalino Cândido da Silva, então cabo da FEB, que repetia a frase “mas onde eu vi muito tedesco foi lá no Monte Castelo”. Pela intensidade e duração dessa batalha, com certeza eles viram muitos tedescos, denominação adotada para os alemães, semelhante ao “tedeschi” utilizado pelos italianos. Essa foi a batalha mais importante da FEB, uma vitória em múltiplos sentidos, junto com outras até hoje honrada por descendentes de italianos que tiveram contato com os brasileiros. Guerras não foram feitas para serem comemoradas, mas não se pode transferir a culpa dos que as fomentam, criam ou tiram proveito para os que nelas lutam e arriscam suas vidas, a maioria apenas pensando em voltar para casa. Que nossos pracinhas sempre sejam lembrados com o respeito e a dignidade que merecem! *Adilson Luiz Gonçalves. Escritor, engenheiro, pesquisador universitário e membro da Academia Santista de Letras