Imagem ilustrativa (Freepik) Não costumo ter o privilégio de lembrar de meus sonhos. Vez por outra, depois de um breve repouso pós-prandial, também conhecido por cochilo depois do almoço, salutar e revigorante, tenho um ou outro lampejo de imagens que se misturam entre sonhos e uma realidade desejada. Naquele dia, acordei envolto numa ventania que parecia querer derrubar o prédio, acompanhada de um uivo que faria inveja a qualquer filme de terror. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Por descuido, deixei uma das janelas abertas e a sala de estar me dava a certeza de que estava na praia, tal a quantidade de areia espalhada. Fechada a janela, o calor vinha com força. Não tive alternativa senão apelar para o ar-condicionado e lembrar: esse é o tal vento noroeste, característico do Litoral, que nos deixa agitados e tensos com o anúncio de virada do tempo. Quem mora no Litoral já conhece esse vento inquieto, que anuncia mudança. O tempo vai virar, a frente fria não tarda e, com ela, o resfriado vem junto. Acostumados a ele, já o antevemos e o anunciamos quase num gesto de orgulho, como se falássemos de um amigo antigo, desses que, como peixe, começam a cheirar mal depois de três dias, mas a quem ainda assim se tolera por costume. Esse amigo chega sem avisar e vai embora como um furacão, deixando atrás de si um rastro de nervos expostos. Cada vez mais violento, resultado das mudanças climáticas e, por isso mesmo, exigindo das autoridades mais cuidado do que se tem demonstrado. Acordei com a boca seca, irritado, as portas batendo, vizinho reclamando, corre, tira a roupa do varal. E com lampejos de imagens de um sonho que lembravam o grande escritor e diplomata, Vinícius de Moraes. Passada a crise, procurei um livro para ler, me amansar: Para Viver um Grande Amor, de 1962, do Poetinha, com suas confissões amorosas, poesias e crônicas caiu sob medida. E lá estava ele: o vento noroeste. Na crônica, com o mesmo título desta que escrevo, ele termina assim: “Que deixem de ranger os papéis da burocracia, sacados pelo vento noroeste. Que pare, que pare imediatamente o sopro desta bisnaga de ar quente a soprar sobre a dentina dolorida da cidade. Que venha o Azul, Azul, Azul!” Fechei o livro. O céu se abriu. A noite chegou. A esperança se renovou.