(Imagem ilustrativa / Unsplash) Quando eu passei a Oficial de Marinha Mercante, um dos focos do meu trabalho era liderar a equipe do convés dos navios. Acredito que essa posição é sempre um grande aprendizado para toda a vida, independente dos desafios que aparecem. Percebi que os valores que devemos respeitar a bordo para manter o trabalho em equipe com harmonia são os mesmos que devemos incorporar em nosso cotidiano para garantir a segurança, o bem-estar e a harmonia, preservando o respeito, a segurança e a ética com as pessoas ao nosso lado. Vejo com tristeza um mundo em que a gentileza, a preocupação com o outro e a atenção no dia a dia estão cedendo lugar para o egoísmo, para a violência e para a pressa de viver sem olhar para as prioridades como a família e os amigos, sem garantir um tempo precioso para olhar o que acontece à nossa volta. No mar também precisamos atender às normas de segurança e manter uma comunicação eficaz para evitar ou enfrentar os riscos. Para isso, usamos equipamentos de proteção e valorizamos o os códigos de conduta para manter um ambiente saudável e seguro. Na terra, muitos não foram treinados para cuidar de quem está próximo e nem receberam equipamentos e conteúdos para mudar olhares e transformar com pequenas ações ambientes que estão sem rumo. Sabemos que o mar é um ecossistema vulnerável, precisamos respeitar as regras para pescar, velejar, evitar o lançamento de resíduos e adotar práticas sustentáveis para reduzir o impacto ambiental. Em nossos lares, também estamos cumprindo as regras para viver melhor em comunidade? Separamos o lixo reciclável? Ainda usamos os saquinhos de supermercados que ameaçam os mares e as espécies que nele vivem? Tratamos nossos funcionários com igualdade, respeitamos as opiniões e os direitos dos vizinhos? As normas da boa convivência pessoal e profissional são claras, embora as cenas de violência gratuita e o isolamento demonstrem o quanto estamos nos afastando da trajetória normal. No mar também aprendemos a pontualidade nas tarefas, a responsabilidade pelas nossas atitudes, a discrição para não expor colega. Resiliência é um termo que muitos usam e poucos praticam. Não é fácil se adaptar à vida no mar, às tempestades, às ondas, ao imprevisto. Da mesma forma não é fácil se adaptar na terra para situações imprevisíveis e desafiadoras. Depende de nossa capacidade de entender as mudanças e agir com profissionalismo e paciência, aceitando que nem sempre a nossa vontade é a mestra. Ainda há outro ponto relevante. Nós somos responsáveis por nossa saúde física e mental para viver em um mundo que muda a cada instante e, às vezes, parece de cabeça para baixo. Somos responsáveis por criar ambientes mais saudáveis e acolhedores. Somos responsáveis por nossas crianças e adolescentes para que encontrem os caminhos e não sintam que a vida é um obstáculo sem solução. Sou otimista e ainda acredito que podemos cuidar do planeta e fazer a nossa parte. Como disse o personagem da obra O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway, “o homem não foi feito para a derrota”. *Bruno Tavares. Vice-presidente da Praticagem de São Paulo