Foto ilustrativa (Alexsander Ferraz/AT) Toda cidade guarda, nas suas linhas invisíveis, o eco de um tempo que nunca se apaga, que ressurge em cada esquina, em cada muralha, em cada janela que ainda reflete o passado. Muitos dizem que o melhor tempo da cidade já passou. Mas será mesmo? Ou será que, como a saudade, que colore as memórias com sua luz dourada, não estamos apenas criando um passado perfeito demais, onde o vento era mais fresco, as manhãs mais luminosas e as noites mais silenciosas? O passado se veste de esplendor. Na memória, os ônibus chegam pontualmente, os vizinhos se cruzam, e as crianças correm livres, como se o mundo fosse um jardim sem fim. Mas e se voltássemos, com os olhos de agora? O que veríamos? Buracos nas ruas, pressa nas pernas, a indiferença do olhar perdido na rotina. Veríamos isso, sem dúvida. Mas ainda resistiria algo poderoso em nós: o pertencimento. O cheiro do pão, a música que escapa das janelas, o banco da praça que sempre espera por quem se atreve a sentar. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Viver com saudade não é o problema. O risco está em viver só dela. A cidade, como nós, é um organismo vivo, em constante metamorfose. O que fomos é apenas a sombra do que podemos ser. Cada árvore plantada agora será memória do amanhã. Cada edifício restaurado, pedaço de infância renascida. E cada praça, repleta de risos, será a fotografia mais querida de um futuro que ainda não se revelou. Caminhar pelas ruas é como folhear as páginas de um livro. Cada esquina é uma palavra deixada por quem passou, mas também guarda espaços em branco, esperando nossas histórias. Quando o coreto, antes em silêncio, se enche de música; quando o mercado reabre, trazendo frutas frescas; ou quando um canal é revitalizado, não estamos apenas lembrando o que foi. Estamos criando o que será. A beleza não é só memória, é ação. Ela é renovação. Ela é o agora. A verticalização, quando bem planejada, pode ser a força que conduz a cidade ao futuro, sem anular sua essência. Não se trata de impedir o crescimento, mas de harmonizá-lo com os valores da convivência, da luz, do espaço público. Ao erguermos novos edifícios, precisamos garantir que o sol entre em cada rua, que a cidade continue respirando, aberta e acolhedora. A sombra, que muitas vezes é vista como um obstáculo, pode ser apenas um convite à reflexão, ao equilíbrio necessário entre o natural e o construído. Ela precisa ser integrada, e não imposta. A cidade não deve ser só cimento e vidro. Ela deve ser luz. E para isso, precisamos de espaços onde o sol entre, onde a luz se espalhe pelas calçadas e praças. Precisamos de uma arquitetura da convivência, onde as sombras não sejam barreiras, mas partes de uma harmonia construída com a participação de todos. Cada edifício que se ergue deve ser uma oportunidade de diálogo entre o novo e o que já existe, criando uma cidade mais humana, mais conectada. O passado não deve ser nossa âncora, mas nossa bússola. Ele nos aponta a direção, mas não deve nos prender. Se a cidade está apressada, talvez seja porque ainda não conseguimos ouvir o silêncio entre as ruas, o espaço entre os passos, o vazio entre os prédios. O que estamos realmente construindo não é apenas a cidade física, mas a memória que ela carregará. E é a memória do agora, que será a semente do futuro.