(Divulgação) Não sei como vocês me chamam, carijó, talvez, o mais comum por aqui. Virei sinônimo de gente calculista, ardilosa, que enxerga longe. Mas não sou o Gavião da Fiel, sou de Santos e estou nos jornais. Me divertindo. Vocês não. São diferentes. Se acham superiores só porque se dizem inteligentes e criativos. Não acredito. Vivem empoleirados como pombo – coitado dos pombos. Desconectados, derrubam, cobrem de cimento e reclamam de calor, ora de falta d’água, ora de água demais. Caçam em supermercados, trabalham horas a fio para se cobrir com panos esquisitos. E seus pés, seus dedos... para que servem? Só para ficarem de pé. Não voam? Vocês não sabem o que é voar sem precisar, só para ver o mundo passar. Vejo e escuto de longe, e não tenho medo de briga; briga boa, pela vida e por minha liberdade de voar e pousar. Só vejo vocês nesse vai-pra-lá-vem-pra-cá, apressados, sem saber onde vão achando que sabem ir para nenhum lugar. Eu sei onde estou. Calculo, observo, espero; toco o chão e o céu com determinação. Quando quero. Se não quero, não vou, voo. Vocês não sabem de nada. A rua é minha, a árvore é minha; o céu é meu. E, como dizem as suas crianças: “Gostou, gostasse! Quem manda aqui sou eu; quem mandava já morreu. Não se atrevam. Não é agressão, é visão. De quem pisa no meu chão, em uma hora em vão. Saí nos jornais, biquei uma passante que cruzava meu caminho e meu ninho. Ficaram com medo, por terem enfiado o dedo, com desprezo, atingindo meu enredo. Fiquei famoso. Dizem que sou monstruoso. Não sou colorido nem espalhafatoso. Sou elegante, altivo, orgulhoso de quem sou. Não ousem invadir meu pedaço. Meu filhote repousa sob o céu, e daqui não saio. Daqui ninguém me tira. Pode passar. Mas passe devagar. Não aperte o passo, passe de mansinho. Finja que está voando rasante. Eu entendo; não podem, talvez nem não queiram. Mas não me impeçam. O pedaço é meu. Cheguei primeiro. Desprezem-se, como querem. Na próxima, vou me deixar fotografar. Não vou me intimidar. Vou posar, de asas e bico bem abertos. Quero me ver no jornal, com simpatia, quem sabe. E, no próximo Carnaval, sair ao lado da águia, minha prima famosa e deslumbrante. *Marcio Aurelio Soares. Médico