Elcio Rogerio Secomandi: "Nas escolas de samba, as pessoas agem em conjunto, como se estivessem participando de operações militares" (Vanessa Rodrigues/AT) Espírito de corpo é um sentimento de união, lealdade e solidariedade que liga os membros de um grupo ou instituição, fazendo-os sentir orgulho de pertencer a ele e os impulsionando a cumprir suas obrigações em conjunto. Como exemplo citamos as escolas de samba, pois elas reúnem em desfiles carnavalescos inúmeras pessoas que pouco se conhecem, agregando de três a cinco mil participantes para desfilarem com suas fantasias diante de um enorme público que ocupa as passarelas. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Nas escolas de samba, as pessoas agem em conjunto, como se estivessem participando de operações militares. Em ambas, os hinos e canções despertam a coragem, a corneta desperta a obediência, os tambores marcam a cadência, as flâmulas indicam o comando e, por fim, as fanfarras e as bandeiras aguçam a vontade de conquistar um objetivo previamente definido, como nos ensinou Sun Tzu, cerca de 500 a.C. Embora com semelhanças marcantes com as motivações militares, as escolas de samba são, na verdade, contrapontos significativos ao que acontece nas guerras, conforme nos descreveu Erich Hartmann (1922-1993), um militar alemão que participou das duas guerras mundiais: “A guerra é um lugar onde jovens, que não se conhecem e não se odeiam, se matam por decisão de velhos que se conhecem e se odeiam, mas não se matam”. Nos desfiles de escolas de samba, ao contrário, as pessoas jovens na sua maioria, se amam, se conhecem e não se odeiam, agindo sempre com muito entusiasmo a fim de agradar um enorme público, levando-o a externar seus sentimentos mais nobres sobre o bem-viver. No contraponto dos exemplos das escolas de samba, o “espírito de corpo” pode ser imposto por algumas circunstâncias pouco desejadas, o que nos faz lembrar de uma conversa entre dois amigos advogados: “Pois é, eu aceitei ser o advogado de uma escola de samba e cerca de seis meses depois procurei o presidente da instituição para saber o motivo pelo qual me pagavam religiosamente, sem nenhum caso a resolver, e ele meu deu o triste recado: ‘Dr, por ora estamos resolvendo tudo de forma amigável. Se houver algum problema policial iremos procurar o senhor’”. O advogado percebeu, então, que não havia como sair do caso, pois não lhe foi limitado corretamente qual seria a sua contribuição e por quanto tempo. Daí, a importância de lembrarmos sempre os ensinamentos de Sun Tzu antes de fecharmos um compromisso que pode nos levar a execução de um trabalho para o qual não teríamos a menor motivação para executá-lo. *Elcio Rogerio Secomandi é professor emérito da UniSantos e membro da Academia Santista de Letras.