(Imagem ilustrativa/Pexels) Num mar de cores, no ritmo da folia, ficou a fantasia com cheiro de lança-perfume. Energia jovem, o coração saltitava qual um dançarino de frevo, frenético, descompassado. Naquele asfalto da avenida, as sapatilhas de bailarina reverenciavam o samba-enredo e o cordão do corso fazia floreios entre os carros. Nos salões dos clubes, o encontro marcado com o pierrô, palhaço, índio, pirata, pescador. A colombina à espreita, nem sempre à espera do arlequim, e somente querendo brincar. Era como se falava - “brincar o Carnaval”. E tudo era uma festa alegre e cheia de sonhos, em que as máscaras nos transportavam para outros espaços lúdicos e mágicos e onde virava-se personagens, tal qual a comédia del’arte, os folguedos africanos e as danças indígenas. Uma mistura, na integração do jeito que é esse Brasil mestiço. Confete e serpentina, acessórios marcantes que ajudavam a colorir os céus do verão ardente, que queimava de emoções nas quatro noites e duas matinês. Fôlego, suor e animação brotavam na espontaneidade de quem tinha a vida toda pela frente e como se aquele fosse o único e último Carnaval… Essas reminiscências são puras e verdadeiras de uma época, onde a data era esperada o ano todo, na confecção das fantasias e na formação de grupos de foliões. As letras das modinhas eram quase sempre as mesmas e se reportavam ao passado mais distante, onde o pai cantava, pois era o puxador do samba de dois blocos de Santos - As Favoritas do Sultão e As Garotas do Amor. Essa herança eu recebi do meu pai, que fazia questão de mostrar as fotos em preto e branco, desfilando na Av. Ana Costa, em frente ao Hotel Parque Balneário - hoje Shopping Parque Balneário. Ele guardava em uma caixa de seus pertences mais queridos, como verdadeiras relíquias. E vinha lá do fundo, com sua voz ainda forte, apesar dos 100 anos de vida, as letras que faziam coro com as batidas do tamborim imaginário. Esses Carnavais são inesquecíveis, pois além de ter “brincado” muito, as lembranças do pai carnavalesco me emocionam até hoje, quando estão próximos os dias dessa Festa, embora agora não contamos mais com as patuscadas, as Batalhas de Confete, o Banho da Dona Doroteia, os foliões nas ruas mexendo com todo mundo e as crianças com bisnagas e jogando confete em todo passante. Pelo menos aqui em Santos, os desfiles das escolas de samba acontecem antecipadamente, e só nos resta aproveitar os feriados para viajar, sem sequer ouvir nenhuma modinha ou um samba-enredo. É um silêncio, até parecido com a Quarta-feira de Cinzas. *Eunice Tomé. Jornalista e escritora