Imagem ilustrativa (Freepik) Segundo recente pesquisa do Instituto Datafolha, 35% dos brasileiros se declaram bolsonaristas. Seriam eles todos partidários da ideologia de extrema direita que se espraiou nos últimos anos? Não creio. A pergunta do Datafolha envolvia apenas dois nomes: Bolsonaro e Lula, e as respostas se dividiram entre eles (35% para cada lado), a sugerir que foi mais forte a rejeição (a um ou outro) do que o apoio propriamente dito. Pesaram mais fatores conjunturais, como a queda de popularidade do atual governo, do que inclinações ideológicas consolidadas. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Ainda assim, é impressionante o avanço da extrema direita. Ela certamente não é adotada por 35% da população brasileira, mas pode-se afirmar que parcela significativa (arrisco dizer 20%) segue tal ideologia. Há 20 anos, os radicais de direita eram poucos e exóticos; hoje ocupam espaço no cenário político. O que aconteceu? Mudaram as pessoas, que descobriram – e passaram a apoiar, com firmeza e entusiasmo – agenda que compreende autoritarismo, repúdio às instituições democráticas, nacionalismo extremado, defesa do ultraconservadorismo moral (Deus, Pátria e família em primeiro plano)? O cientista político Vicente Valentim, da Universidade de Oxford, desenvolveu explicação para esta pergunta. Segundo ele, não se trata de mudança de preferências e comportamentos rumo ao extremismo de direita. Embora ele não descarte que algumas (poucas) pessoas possam ter tido essa trajetória, a razão do que ele chama de “normalização” da direita radical deve ser encontrada nas normas sociais. Elas são regras de comportamento que os indivíduos seguem se creem que os outros também as respeitam, acreditando que devem ser seguidas, com sanções para aqueles que as descumprem. Ora, há poucas décadas a norma social era de repúdio à extrema direita, estigmatizada pela maioria. Assim, as pessoas que se identificavam com ela mantinham-se em silêncio, ocultando suas preferências, que não se traduziam em comportamentos públicos. Ocultavam suas verdadeiras ideias e, mesmo que votassem em candidatos alinhados a elas, jamais exprimiam isso no espaço público. Para quem duvida dessa tese, basta pensar em alguém que, embora sem religião, agnóstico ou ateu, viva em ambiente fortemente religioso. Irá ele proclamar suas ideias sabendo que será rechaçado e marginalizado? As normas sociais, entretanto, são alteradas. Relaxam-se, enfim. Fatos externos influem: basta pensar no Brasil nos movimentos de protesto de 2013, onde despontaram grupos de direita, o descrédito da política institucional, a insatisfação generalizada. Tudo isso confluiu na eleição de Jair Bolsonaro em 2018, estopim do que Valentim chama de “ativação”, quando as pessoas votaram na extrema direita, muitos ainda sem consciência plena dessas posições, até se chegar a uma terceira fase, a da “ruptura”, em que, livres de amarras sociais, os indivíduos revelam suas verdadeiras inclinações. E a partir daí, assumem, com clareza, suas posições perante a sociedade.