Foto ilustrativa (Alexsander Ferraz/AT) Outro dia eu estava indo à Santa Casa de Santos, em um domingo. Ao atravessar a avenida, olhava naturalmente para o sentido de onde vinham os carros, mas um veículo mais à frente deu ré, uma ré veloz, uma situação absurda. Vestindo uma camisa de clube de futebol, o motorista pensou tão somente em encontrar uma vaga de estacionamento para depois assistir ao jogo. Por um fio não cometeu um homicídio; culposo defender-se-ia ele; doloso, poderia dizer a Justiça, já que a imprudência da manobra o fez assumir o risco do dano à vida. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O fato é que algo me fez olhar para o lado de onde não deveriam vir veículos, ver aquele carro em ré e dar um salto para fora de sua linha. E o que é esse algo? Olhando para trás, consigo encontrar pelo menos duas ou três situações claras de risco iminente das quais me senti tirado como por uma força superior. Esse tipo de situação me faz pensar em anjos da guarda. Por qualquer mistério, não era ainda a hora de ir embora e uma força me empurrou para fora. A vida tem seus mistérios. Para mim, o início de tudo, assim como o fim, e neste último caso, o nosso fim, é mistério. Para muitos, céu ou inferno; para os islâmicos, as 72 virgens no paraíso; para os orientais, a terra pura dos budas; para outros, simplesmente o ponto final. Na verdade, ninguém sabe, nem ciência alguma é capaz de dizer. Quanto ao início, o orgulho humano que sente a necessidade de encontrar respostas para tudo, criou a teoria do big bang. Quantos zeros tem mesmo um bilhão? Não é possível saber o que se passou há 500 mil anos, há um milhão de anos, pense em um bilhão de anos, mas não, são cerca de 14 bilhões de anos. Então, dessa explosão cósmica, saiu tudo o que hoje existe, inclusive o ser humano na sua imensa complexidade, seja a psicológica e comportamental, como a que faz um torcedor quase matar alguém porque só pensa no jogo que quer assistir; ou brigar com o torcedor adversário até matá-lo porque torce para um time diferente; seja a biológica, onde temos um coração pulsando, fígado e rins filtrando, pulmões se enchendo e esvaziando de ar para nos manter vivos, sem que tenhamos que pensar nisso ou decidir que seja assim. Honestamente, para acreditar que uma explosão é o ponto de partida de tudo isso, penso que é necessária tanta “fé” quanto aquela que muitos têm num Deus criador, que por um ato de vontade criou o ser humano e tudo o mais que a natureza abarca. Por isso gosto da postura do premiado cientista Marcelo Gleiser, pesquisador e professor da Faculdade de Dartmouth, nos Estados Unidos, que afirma que há algo mais além da ciência, que escapa ao conhecimento científico. Segundo ele, habitamos a Ilha do Conhecimento em um oceano infinito de ignorância. Assim como certos livramentos que nos surpreendem, tal como certas sincronicidades de acontecimentos que nos encantam, o início e o fim de tudo constituem um insondável mistério, que assombra e quebra a arrogância humana.