Você lembra da sua primeira nave? Não tinha botão, nem asa, nem manual. Era só uma caixa de papelão, torta, cheirando a poeira, pronta para se desmanchar na primeira chuva. Mas bastava acreditar e ela decolava. Com pouco nas mãos, inventávamos mundos de sucata. O motor da nave era a falta. E, curiosamente, ela voava. Naquele quintal, ou quarto uma tampa virava escotilha, um risco de giz era janela para o espaço e o chão se tornava pista de decolagem. Cada dobra trazia um som áspero, como se o próprio papelão tivesse motores escondidos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Crescer, dizem, é ganhar asas. Mas quase sempre é o contrário: é carregar peso. É juntar chaves, crachás, senhas de banco. É trocar o quintal aberto pelo estacionamento cercado. É decorar senhas que não nos levam a lugar nenhum. É descobrir que os voos não desaparecem. Apenas se escondem, esperando coragem para decolar de novo. Nessa troca, a vida se enrijece. O que antes era improviso vira checklist, o que antes era aventura vira formulário. A cidade cresce, mas nem sempre amadurece. Entre prédios espelhados e ruas engarrafadas, há silêncios que lembram a falta daquele quintal. Quando caminho pelas ruas da cidade, sinto falta daquela liberdade de criar com pouco. O papelão não fingia ser o que não era: frágil, torto, descartável. Mas, por isso mesmo, verdadeiro. Não havia promessa de durar, mas havia promessa de levar longe. Foi ali que aprendi a olhar para a cidade de outro jeito. Não para erguer monumentos de concreto, mas para lembrar que ela precisa de espaços onde a imaginação respire. Uma praça simples pode ter mais valor que uma obra de vitrine. Uma sombra de árvore pode oferecer mais futuro que uma fachada imponente. Uma dobra imperfeita pode abrir janelas maiores que um arranha-céu. A nave de papelão não era só brinquedo, era lição. Ela ensinava que o essencial não está no que compramos, mas no que conseguimos reinventar. E que às vezes basta virar o avesso das coisas para descobrir novos mundos. Meu amigo Roger Guerra, com sua banda Carlos Bronson, que tem uma estrofe na música Nave Papelão que traduz esse espírito, canta: “E construía a minha nave papelão pra voar no meu quintal, de ser espacial especial”. Sempre sorrio quando ouço. Porque ser especial nunca foi ter o brinquedo perfeito, mas a coragem de inventar. Talvez o papelão tenha nos ensinado isso: que ainda é possível dobrar o impossível em asas. Mesmo que sejam asas frágeis, de papelão. Mesmo que o adulto duvide. Mesmo que a cidade insista em nos manter no chão. E você, ainda lembra como voa? Alessandro Lopes é aquiteto, pesquisador em cidades criativas e inteligentes e mestre em Direito Ambiental.