(Imagem ilustrativa/Unsplash) A alinhada senhora entrou na sala de espera do consultório médico e atraiu a minha atenção. Dirigiu a todos um meigo sorriso, e um suave “boa tarde”. Sentou-se, olhou-me, sorriu e disse: “Você foi meu aluno. Sou a professora Raquel!” Imediatamente lembrei-me da gentil e carinhosa professora da quarta série, que eu admirava tanto! O tempo muda as feições, envelhece as pessoas, mas não apaga as recordações. Eu mudara de escola e, naquele tempo, os espaços maiores para uma criança da minha idade assustavam um pouco. O carinho transmitido pela professora Raquel possibilitou-me a segurança necessária para que a minha adaptação ao novo ambiente de estudos fosse rápida. Lembrei dela mais jovem, uma mulher delicada, bonita, austera, mas que sabia ser doce, nunca alterando a voz ao nos conduzir pelos caminhos do aprendizado. Um filme passou pela minha mente. Fui lembrando a classe, os colegas, as aulas, o cheirinho bom dos cadernos e dos livros novos, os lápis sempre bem apontados, o tinteiro, a caneta, os uniformes impecáveis, a disciplina rígida. Saudade de um tempo bom, feliz, mais puro e menos atroz. Eu vivia em um lar simples e ordeiro. Quando chegou o tempo de ir para a escola, levei de casa não apenas os livros, cadernos e outros materiais, mas também os valores, o senso do respeito ao próximo, a responsabilidade para com a importância da boa convivência e princípios herdados da família. A professora Raquel, aquela doce e sorridente senhora que me transportou ao tempo da minha infância feliz, fez-me perceber que o mundo se modernizou, mas perdeu a pureza. Aquele passado mais difícil e menos sofisticado é parte integrante da minha vida, em cujas etapas fui acumulando as tão importantes lições de vida, necessárias à minha satisfação como ser humano capaz de atravessar dificuldades e saber aproveitar os bons momentos. Ao me despedir da professora Raquel, quis guardar na lembrança o sorriso da educadora exemplar que passou pela minha vida como uma pessoa admirável. Quando revelei que também me tornara professor, ela deixou transparecer uma tênue emoção e falou: “Você escolheu a sua profissão motivado nos bons exemplos de professores que deixaram marcas muito importantes na sua vida. Fico orgulhosa de poder ter sido uma dessas pessoas”. Quis dizer muitas coisas. Um emocionado sorriso de retribuição foi o que consegui manifestar em agradecimento àquelas palavras, muito verdadeiras. Esse reencontro foi importantíssimo. As recordações do passado foram revividas naquele mágico instante, que ficará eternizado na minha memória. *Maurilio Tadeu de Campos. Mestre em Educação, pesquisador, escritor, presidente da Contemporânea-Projetos Culturais e membro da Academia Santista de Letras.